A Razão das Histórias

 

Quando começo a escrever uma história penso sempre na relação de troca que ela vai ter com quem vai ler...

 

...em cada história busco exemplificar os verdadeiros fundamentos do Batuque e o seu real significado...

 

...quero o questionamento, o debate, a réplica, o confronto no sentido de mudanças e evolução nas relações com sua crença e fé nos Orixás...

 

...o mito, o herói de minhas histórias é o meu leitor...

 

...uma Casa de Batuque é antes de tudo o último reduto de resistência da raça negra..."

Quando começo a escrever uma história penso sempre na relação de troca que ela vai ter com quem vai ler. Para isso, meu processo de criação passa por uma série de etapas a serem cumpridas. Primeiro relato de supetão tudo que me vem à mente. Numa ânsia louca e desenfreada a história vai saindo pela mente, pelas mãos e pela boca, numa velocidade descontrolada, num frenesi, expelindo de minha alma toda a trama. A inspiração e a vontade de escrever parece-me como uma dor, só cessará no momento que estiver no papel. Inicio com o que pretendo dizer, de como tudo se passou, da realidade dos fatos ali narrados, para, no passo seguinte, repassar a história, o que significa: “tirar todos os cacos e palavras que considere desnecessárias”. Isso eu chamo de limpar o texto, desta forma preservo a autenticidade do relato e me esforço o máximo para trazer o texto para a linguagem batuqueira. Está pronta a primeira parte. No passo seguinte tem um método que considero infalível. Objetivando ser persuasivo e convincente, passo a ler em voz alta por diversas vezes a mesma história, até encontrar o equilíbrio que eu considere adequado ao sentido que quero dar aos fatos. Ouvindo o som de minha voz posso encontrar a sonância da linguagem do meio da comunidade batuqueira, assim sei que ela será fidedigna ao meio onde tudo se passou. Outro valor do qual me mantenho irredutível é objetivar que ela seja uma mensagem para reflexão de quem a lê. Penso no meu leitor, não como um telespectador que vai a um cinema e ouvindo os sons e vendo as imagens não precisa elaborar, pois ali, ele não precisa de nada, está tudo pronto perante seus olhos. Ao contrário do que escrevo, para ele se deliciar terá que reconstruir meus personagens e se identificar com suas ações e reações de acordo com a relação que ele, meu leitor, tem com a sua realidade e conhecimento do Batuque.Tenho a pretensa intenção de forçar meu leitor a refletir e questionar, o melhor seria debater e confrontar o que escrevo com sua realidade, não quero que ele receba o que escrevo como prato feito, pronto para digerir. Preciso saber que ele pode interagir no que escrevo e, desta forma, contribuir para melhorar sua vida.O mundo é feito de sons e imagens, mas na leitura cada um de nós pode criar o rosto de cada personagem a seu belo prazer. Quero dar ênfase ao universo do batuque dentro do enredo da história, mas não quero fugir da realidade do mundo em que vivemos, isso faz com que ele lendo minhas histórias, faça alguma coisa para melhorar a relação com sua religiosidade. Minha pretensão é de dar a pauta do questionamento de sua vida dentro da comunidade batuqueira, de sua participação e do que ele pode fazer para melhorá-la. Por mais simples que seja o que escrevo, em cada história busco exemplificar os verdadeiros fundamentos do Batuque e o seu real significado. Quero o questionamento, o debate, a réplica, o confronto no sentido de mudanças e evolução nas relações com sua crença e fé nos Orixás. O mito, o herói de minhas histórias é o meu leitor. Nos livros, nos filmes e nas peças de teatro, o herói é geralmente branco, boa pinta, abastado, bem informado e vitorioso, este é o estereótipo de tudo que a sociedade de consumo pretende impor ao mundo, ou seja, sejam brancos, tenham dinheiro e sejam felizes para sempre. Balela, bobagem, me poupem. A realidade não é assim e todos nós sabemos que a maioria do povo brasileiro é negra, pobre, desdentada e analfabeta, e, o pior de tudo, desinformada. É para estes que escrevo, estes são meus personagens, meus heróis, minhas heroínas, aqueles que na mais miserável das vilas encontra forças para lutar pela dignidade de sua vida, de sua crença e de sua fé. Uma Casa de Batuque é antes de tudo o último reduto de resistência da raça negra, um fórum de pequenas causas onde, aquele que nada tem, não tendo mais a quem recorrer, busca na justiça dos Orixás as respostas para suas dores, seus anseios e suas amarguras. Este é o real sentido que sempre procurei dar as minhas histórias, o significado e a função de um Babalorixá da religião Africana, o Batuque. De resto me conformo com a critica daqueles que nunca fizeram nada para melhorar suas vidas, quiçá a vida dos outros. E morrerei com uma certeza: minhas histórias ficarão, ou como diria o meu poeta maior, Mario Quintana: “eles passarão, eu passarinho”.

 
João Carlos de Odé
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