A árvore do meu axé

A Árvore de Meu Axé.
As árvores durante suas vidas geram frutos e alimentam todos que a cercam, passado alguns anos deixam de dar frutos e alguns galhos secam e as folhas começam a cair. Existe sempre a necessidade de uma poda, para que nasçam novos galhos e novas flores, novos frutos, e ela volte a ser viçosa. Estes galhos secos são como parasitas, de nada adianta continuarem ali agarrados à árvore, são inúteis, estão ali para exaurir as energias da árvore, depauperar e esgotar até a última gota. São obsoletos em sua função primordial, que é a de dar frutos, ou pelo menos dar sombra, mas estes a que me refiro, sequer sombra fazem mais.

Estava pensando nestas árvores, comparando-as a uma casa de Religião Africana, para ser mais preciso de Batuque. Estranho... Muitos dirão! Mas para mim que viveu três gerações dentro de três casas de Batuque, (a de minha vó, Jovita de Xangô Agodô, de minha mãe Miguela de Bará Agelú, e agora a minha).Foram três décadas de trabalho sacrifício, luta, medo, insegurança e duvidas, sentimentos que vivem dentro qualquer casa de religião.

Quem ler este texto compreenderá: o quando são difíceis as ditas relações humanas, e o quanto nós temos que apreender, pois, cada vez que se perde: Se é que se pode dizer perder um filho de santo, o quando de sofrimento fica em nós. Isto também vale para tudo que se relacione à perda (de um amor, um trabalho, ou algo que se queira muito), sempre a de ficar em nós o gosto amargo da derrota, e as perguntas: ou do porque que não deu certo? Ou no momento de maior consciência se perguntar: onde foi que eu errei? Perguntas sem respostas, que nós perseguirão por toda a vida. Isto tudo eu vi, vivi e tenho certeza, ainda não aprendi, nem minha vó de Santo Jovita de Xangô e nem minha Mãe de Santo Miguela de Bará Ajelú, duas mulheres e um homem, que conheceram três décadas de ingratidão, está que é a pior desgraça na vida de um Babalorixá aprendemos ou ensinamos a nossos filhos de santo como conviver com a ingratidão.

Por mais que eu tenha observado e me revoltado com as traições, injustiças e ingratidões, que estas duas mulheres sofreram, nunca consegui compreender como isso pode acontecer! E hoje, vivendo e evidenciando na própria pele, continuo a não entender e o pior continuo a dizer o quanto é difícil entender a alma humana. Veja e observe bem: Estou falando destes sentimentos que acontece com os humanos, no momento mais sagrado do relacionamento com seus Orixás, hora sagrada com o que existe de mais puro no ser humano: O trato com seu Orixá, considerado por mim, o mais puro sentimento de fé e de amor. 

Pode se dizer que pessoas que agem assim têm alma humana? Não, não tem, aqui afirmo eu. Poderia, num momento de revolta, dizer que estas pessoas têm alma de animais, quando ferem princípios morais e religiosos, do respeito, da dignidade e de amor, mas ai, já é querer ofender os animais. E quanto mais o tempo passa mais eu fico pasmo que o quê vem acontecendo ultimamente, assustado eu vou recuando tal qual uma ovelha, acuada por uma matilha de lobos, famintos e sedentos por sangue e desgraça, busco me esconder para poder salvar um pouquinho do fundamento do batuque. Meu padrinho Vilson Chaves de Xangô dizia: “quanto mais eu vejo a alma humana imunda e suja, tenho vergonha de ser homem” Aqui eu parafraseio: “quanto mais eu vejo as baixarias que existe com as pessoas dentro do Batuque, tenho vergonha de ser Babalorixá”.

Acho que fugi do texto, mas sobre o que eu estava falando mesmo? Há... Sim, era sobre os galhos podres de uma árvore. Sim, os galhos de uma árvore, este eram o princípio deste texto. Estava eu, uma tarde de inverno rigoroso, observando uma laranjeira, que existe em meu terreno e vi que passados muitos anos, ela apesar de velha e maltratada continuava a dar frutos: o sentido real de sua vida.
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