As Travessuras do Bará Lodê de Mãe Toninha

Naquele verão ensolarado de 1962, as coisas que já não andavam bem na vila São José, pioraram com a notícia do falecimento de Mãe Antoninha de Yemanjá. O batuque que já vinha carente, sentiu a dor da perda de mais um de seus líderes. Mãe Toninha de Yemanjá era tudo que restava dos mais antigos. Sua perda foi irreparável e aquela data marcaria uma nova era dentro do batuque. Como herança, Mãe Toninha deixou um Bará Lodê assentado que deveria ser cuidado por um dos seus filhos de santo. Aquele Bará Lodê era o guardião do templo, fruto da herança de seu bisavô, um legado hereditário de sua bacia. Ninguém tinha a mínima idéia sobre quem o havia assentado, mas sabíamos que aquele Bará Lodê tinha pra lá de cem anos de feitura. Na manhã seguinte ao Arissum, os filhos mais antigos reuniram-se em torno da mesa de búzios, em frente ao quarto de santo. Coube, por hierarquia, ao filho mais antigo, José de Yemanjá, jogar os búzios para saber quem o Bará Lodê escolheria como seu novo guardião. No silêncio daquele enorme salão o único som que se ouvia era o dos búzios sendo jogados sobre a mesa, todos ansiosos pelo veredicto final. Foi quando o negro Ademar de Xangô saltou da cadeira aos brados: - Comigo é que este homem não vai ficar! Mas não vai mesmo! A negra Paula de Oxum, esposa do negrão, agarrou o marido pelo braço e ponderou: - Tenha paciência, Ademar, o José ainda não disse o nome do escolhido. O negro José de Yemanjá, com calma e perícia, examinando os búzios na mesa, voltou-se para os irmãos e revelou a decisão do Bará. O temor do negro Ademar foi confirmado. Sim, ele fora o escolhido. - Eu não disse que isto ainda ia estourar nas minhas mãos? A Mãe já tinha me avisado, agora, o que eu vou fazer com dois Barás? Bem, agora era pegar ou largar, e neste caso pegar, já que o largar significava bronca e das grossas com o homem. Dentro dos fundamentos da nação Ijexá, há um que reza que o Bará Lodê não pertence ao Orumalé, ou seja, ele não é despachado no caso de morte do dono do templo. Seu assentamento é feito para proteger na rua os filhos daquela casa. É ele quem decide com qual dos filhos da casa vai ficar para dar continuidade a sua permanência na terra. Esse era o temor do negro Ademar, ter que sustentar o Bará pelo resto de sua vida. Quem decide é o homem, e decidiu, tá resolvido, não há lugar para explicações ou negativas, tem que assumir. E foi assim que terminou aquela reunião. O negro Ademar não voltou mais aquela casa, ou como ele mesmo dizia: - Não perdi nada lá para fazer visitas. Os irmãos mais velhos saíram revoltados com o despautério do negrão. Dona Beti de Ossanhã, uma das filhas mais velhas, buscava uma solução mais plausível: - Olha, gente, a Mãe não sentou Lodê pra mim, bem que eu poderia ser a escolhida e ficaria tudo de bom tamanho. Mas ela não fora a escolhida e qualquer decisão entre os humanos seria contrária a do Orixás. Bem, o que fora dito estava escrito, e o juramentado teria que ser respeitado sob pena de ter a revolta do Bará. E quem se atreveria a desobedecer ao homem? Quem? Eu? Eu fora! Já tô tirando o meu da reta. O negro Ademar fincou pé, foi irredutível, não levaria o Bará para casa de jeito nenhum. Que bom se fosse assim! Para quem pensa que no batuque se governa está muito enganado, aqui quem manda são os Orixás, aos humanos cabe obedecer, e quem pensa ao contrário terá que arcar com suas responsabilidades. É botar para ver. E o negrão botara! Agora era esperar pelo resultado. Os dias se passaram e eu até pensei que o Bará havia partido com sua dona já que tudo continuava na maior calmaria no Partenon, centro nervoso do batuque, lugar onde as fofocas são as desgraças que envolvem os batuqueiros. Tudo continuava na mais santa paz, dava até para desconfiar. Ou será que este Bará está satisfeito? Bem, tem quem pense assim, infeliz deste. Um dia o negro Zé do Agelú passou em frente ao meu portão e perguntou: - E aí, Deodé, como é que ficou o caso do homem? - E eu sei lá de assunto de homem. Respondi. - O Bará da Mãe Toninha ainda não viajou? Agora me liguei no que ele queria saber, era se o negro Ademar de Xangô havia levado o Bará para casa. - Pois agora, Zé! Tu sabes que eu não sei? Claro que eu sabia, o que eu não queria era ver meu nome envolto naquela baita fofoca. O negrão não levara e, para completar, promovia o maior festere para o aniversário de seu Orixá Xangô Aganjú, coisa de derrubar mais de trinta e dois quatro pés. O que poucos sabiam é que mais alguém aniversariava naquela data, o tal de Bará Lodê de Mãe Toninha. Pra quê! A matança seria na sexta-feira e a festa, como é de praxe, no sábado, com grandes comensais e rufar dos tambores, festa para mil convidados. Mas, na quinta feira à noite, o negrão recebeu a visita inesperada do Bará Lodê. Já que ele estava de aniversário, resolveu dar uma passadinha na casa do negro Ademar e, aproveitando a visita, comeu trinta e dois quatro pés, setenta galos, cinqüenta galinhas e todos os pombos que tinha no pombal e, de lambuja, levou seu compadre Ogum Avagã, que comeu toda a cachorrada e os animais domésticos do terreiro, coisa de pouca monta, nada mais que o básico. Na manhã seguinte o que se ouviu foi a gritaria do negrão: - Lodê, tu não tem respeito com um filho de religião? Aonde se viu tal afronta? O Lodê, com a barriga farta, cochilava, fazendo ouvidos de mercador para o chorumela do negro Ademar, que teve que abrir um enorme buraco e enterrar toda a bicharada. O negrão não se deu por vencido: - Amanhã ele me paga, vou despachá-lo e quem tentar me impedir, eu mato. Bem, isso é quizila grande e todos que ficaram sabendo se afastaram do caso, uns por medo, outros desejando o acontecido só para ver a rasteira que o negrão Ademar de Xangô levaria do Lodê. O carro do negrão era uma Sinca três andorinhas, coisa linda de se ver, flamante, comprado com parte do dinheiro ganho de uma herança. Embarcou nele e foi com tudo na direção da casa de Mãe Toninha, decidido a despachar o Lodê. A estrada que liga Viamão e Porto Alegre era sem asfalto, terra solta e curvas perigosas. Estava um dia chuvoso e como ele tinha pressa, imprimiu velocidade. Encontrou uma curva de areão solto... E foi aquilo tudo de se perder, encontrar uma árvore, destruir o carro e ter a cara desfigurada pela trombada. Fui visitá-lo na Santa Casa de Misericórdia onde o encontrei em estado lastimável, todo quebrado, enfaixado, cheio de curativos, gemendo pela dor, mas irredutível: - Ele me paga, assim que eu sair daqui vai ter pro lombo dele. - Ele quem? Pergunto, mesmo sabendo a resposta. - Aquele Lodê, foi ele quem me atingiu naquela curva. Antes de capotar eu ainda ouvi a risada daquele infeliz. Bem, há quem tem cabeça pra estas quizilas, eu que não tenho... Debandei. Recuperado, lá vai o negrão Ademar de Xangô cumprir o prometido: despachar o Lodê. Para não perder tempo, já que tinha pressa, avançou, meteu o pé na porta da casa do homem e foi com tudo pra cima. Sacou de dentro da casa o alguidar com o assentamento do homem e enfiou tudo dentro de um saco que botou sobre o ombro e saiu. Seu destino: o cemitério local onde fora sepultada Mãe Toninha de Yemanjá. Lá chegando, entrou como quem chega na casa da sogra. Foi quando ouviu alguém lhe chamando, voltou-se para ver quem era e levou um tabefe na cara que o jogou para trás. Era Mãe Toninha, sua Mãe de Santo, que aproveitando, enfiou-lhe mais dois ou três catiripapos e, para não perder a conta e aprumar o negrão, sapecou de pronto: - Onde tua vais com este Bará Lodê, negro infeliz? O negrão Ademar, no maior medo, tentando se desculpar, soltou o choro e aos gritos clamou: - Não me bate, Mãezinha, não me bate. Me perdoa, eu prometo, não faço mais. - Então, infeliz, eu te deixo um Orixá pra cuidar da tua família religiosa e tu me afrontas querendo despachá-lo? Onde eu estou que não te levo junto? O negrão deu de mão no Bará e retornou por onde veio, só que desta vez correndo. Passou na frente da casa de sua Mãe e foi depositar o Lodê junto com o seu. - Agora tu tens um companheiro pra prosear. Os Orixás nos dão lições valiosas, se fôssemos inteligentes, até aprenderíamos. Mas, todos sabiam que aquele negro era tinhoso e que não desistiria tão fácil. Com a nova morada, o Bará Lodê se aquietou e tudo voltou a calmaria, afinal, as coisas estavam como ele ordenara, tudo dentro dos conformes. Nas festas dos batuques o povo do Santo, só para embaraçar o negrão, perguntava aos risos. - E aí, negrão, como vai o compadre? Povo sem respeito, desaforados. E lá vinha a sua resposta: -Vai bem, obrigado, só que se depender de mim, na maior seca. Isso significava sem achôro, sem ecó, sem frente, sem o trato que requer um Orixá. Ele pensava que na penúria iria dobrar a força do homem: “Sem forças ele não pode me atingir, afinal, eu já tenho Bará assentado, pra que vou tratar dois quando preciso apenas de um?” Assim ele achava, mas o homem pensava diferente. Os Filhos de Santo daquela casa foram debandando, os clientes desapareceram da porta do negrão e a miséria chegou para ficar. E o negrão nada de mudar. Quando o café da manhã passou a ser jacuba, a coisa encrespou, desta vez foi a mulher que entrou na parada: - Tchê, negrão... Agora com tuas loucuras tu botou pra toda a nossa família, mas nós não estamos juntos nesta jogada, amanhã mesmo eu me mudo com as crianças para a casa da minha mãe. Com isso, tudo mudou de figura e o negro Ademar se sentiu mais apertado que rato em guampa. Naquela noite, o negrão se postou na frente da casa do Bará Lodê a dizer desaforos: - Onde se viu um Orixá que está morando de favor em minha casa se postar diante do portão a correr meus clientes, Filhos de Santo e amigos? Mas é muito despautério deste homem. Irritado com tantas dificuldades e desiludido com os ditames dos Orixás, largou o serviço e passou a beber toda a cachaça do mundo. Mas, o que mais o deixava louco de raiva era ver de madrugada os dois Barás e o Ogum Avagã chegarem em casa as gargalhadas, no maior porre. - Mas estes exus querem me deixar louco. Eu na maior penúria e eles fazendo farra. Deixa estar, amanhã acabo com esta brincadeira. Na noite seguinte deu de mão num litro de gasolina, derramou sobre a casa do Bará e tocou fogo, saiu dali rindo, feliz com a vingança. Para comemorar tal façanha, tomou um porre e foi dormir. De repente, viu três negrões entrarem em sua casa e se acomodarem como se donos fossem. No começo ele custou em aceitar aquilo, mas, estando morando sozinho naquele casebre, topou a parceria. Agora ele não sofria de solidão, tinha amigos com quem partilhar sua miséria e dificuldades. Foram noites de farras e risadas, conversas e mais conversas que varavam a madrugada, confidências que só os amigos dividem, cumplicidade e respeito pela vida um do outro, afinal, amigo é pra essas coisas. Pela manhã ele saía em busca de mais trago e a noite o povo assistia atônito aquelas algazarras, churrascada e cachaçadas das boas. Alguns pensaram até em chamar a polícia tal a perturbação do sossego da vila. Uma noite, enquanto os outros companheiros dormiam, o Bará Lodê se pegou a conversar com o negro Ademar de Xangô. Falou sobre sua passagem na terra, seu tempo de vida e revelou o porquê de ter escolhido o negro Ademar para protegê-lo. O negrão, na maior atenção, ficou por longo tempo ouvindo. Dentre as revelações, uma ele nunca esqueceria: - Tchê, negrão, tu sabes por que te escolhi? Foi por tu ser obstinado. É virtude obedecer alguém ou alguma coisa, mas o mais belo é a tenacidade, porque ela revela que neste momento o homem não está mais só e a voz a que ele obedece é a do coração, a que está vindo do seu Orixá. É isso o que te diferencia dos demais homens. Tu és um homem honesto e puro de coração, vencerás por teu esforço e trabalho e eu estarei aqui para te ajudar a criar teus filhos e protegê-los na rua. Então era isso. Na sua teimosia demonstrara a força de seu caráter. Ele só não entendia como o Bará destacava como virtude aquilo que para ele era um grande defeito. Agora ele entendia... O que todos consideravam defeito, sua obstinação, fora determinante para que o Bará Lodê o escolhesse como herdeiro e zelador. Na manhã seguinte saiu determinado a cumprir uma grande tarefa. Já que ele era considerado excelente mestre de obra, pretendia construir uma enorme casa para seus compadres. Comprou duzentos tijolos, uma bolsa de cimento e areia barrenta. Obra acabada, ficou linda de ver, digna de elogios. Buscou sete galos vermelhos, três cabritos e os sacrificou como agrado aos homens. Chamou o tamboreiro Valter Calisto, o Borel, e mandou tocar por uma hora as rezas para que seus compadres não comessem em silêncio. Na semana seguinte conheceu o poder da magia do Bará Lodê. Os Filhos de Santos, os amigos e clientes se multiplicaram. A mulher e as crianças corriam pela casa, felizes com o novo homem no qual que ele se tornara. À tardinha, quando a gente passava pela frente daquela casa, podia se ver o negro Ademar de Xangô sentado em um banquinho, em frente à casa do Lodê, com a porta aberta, tomando mate e proseando como se os parceiros estivessem ali. Quer parecer que a frente e oferendas dos Orixás, além do churrasco do Ogum, foi acrescida de erva mate e chimarrão. Mas bah, tchê! Tri legal.
Comments