O cajado sagrado de Oxalá Bocum

Na subida do morro, quase na entrada da mata nativa, o negro Paulo de Oxalá construiu um barraco. A seguir, deu de mão na negra Neiva de Oxum e foram morar juntos. Aquele ajuntório foi a salvação na vida do vivente. Antes, festa e cachaçadas, agora, trabalho e mais trabalho. Artesão dos bons, nos idos dos anos cinqüenta criou fama por esculpir os Orixás em vulto. Suas mãos foram consagradas pelos deuses para entalhar na madeira os Orixás da maioria dos Babalorixás. Foram anos de grandes feituras e do início da vida religiosa da maioria dos que têm casa aberta hoje. Com a fama, a procura por sua arte dobrou e a vida melhorou. Com o dinheiro ganho, fez uma reforma no galpão e abriu espaço para o ateliê. Os anos se passaram e a família cresceu. A negra Neiva botou uma barriga atrás da outra, três meninas eram a ninhada a cercá-lo de carinho e atenção. Apesar de estar feliz com as filhas, seu sonho era ter um menino, e este nada de aparecer. Foi quando um belo dia a negra Neiva anunciou:- Estou grávida. Pra quê! Foi a festa. Planos mirabolantes para o nascimento do rebento.Finalmente os Orixás haviam escutado suas preces. Teria ele um varão para seguir sua dinastia e, principalmente, jogar futebol no Colorado, seu time do coração. No morro estabeleceu-se um clima de expectativa angustiante. Os búzios de Mãe Estela de Oxum prenunciavam que desta vez ele teria seu menino. Chegado o grande dia, houve uma correria em direção a Santa Casa de Misericórdia. Cercada de carinho, a negra Neiva deu cria e o berro do rebento se ouviu no morro todo. Mas, como diz o velho ditado: “Os Orixás têm suas razões que a própria razão desconhece”, o menino nasceu com um problema congênito em uma das pernas. Aquilo por si só derrubou o negrão que sonhava ter um menino para ensinar a jogar futebol e a esculpir os Orixás. Agora os Pais lhe haviam dado de presente um menino com um defeito físico. Foi grande a tristeza e pior a decepção. “Aceitar sim, mas resignar nunca”, esta era a tônica de suas preces dentro do Quarto de Santo. Quando não agüentava mais ver a dificuldade do moleque em deslocar-se - este caminhava quase se arrastando - o negrão se escondia no meio do mato para chorar a dor do filho. Às vezes saia pelos botecos da vila, e entre umas cachaças e outras, desabafava: - Onde estão estes malditos Orixás para quem dei a vida a esculpi-los, para agora modelarem meu filho com um aleijão? Será esta a minha paga? Os amigos que o cercavam se calavam ao ouvir este desabafo, não podiam colocar resignação no lugar onde habitavam a dor e o sofrimento. Todos os materiais de suas obras eram colhidos dentro da mata nativa, madeira nobre: cedro, cedrinho, itaubá, angelim louro frejó, mogno. Tudo ali a mão, aguardando que o mestre os apanhasse. O menino caminhava ao lado do pai. Apoiado em uma bengala, ia capengando, recolhendo os pedaços de madeira que, depois de examinado em suas formas, projetavam a criação. O menino observava com afinco os traços definidos pela natureza e, ao mesmo tempo, tinha o poder de redimensionar na mão o Orixá que seria esculpido. Parte da obra a própria natureza já tinha executado, agora eram aquelas mãos que dariam o toque final. A percepção do menino em ver os objetos pelo simples toque, delineando as partes que seriam esculpidas, sempre deslumbrou o pai. O negro Paulo sorria de felicidade ao ver que seu moleque tinha talento especial, cabia a ele incentivá-lo para o caminho da arte. E assim foi.O tempo passou, mas a amargura foi tomando conta da cabeça e do coração do negro Paulo e a bebida chegou para ficar, era o bálsamo para o esquecimento, o alívio para o sofrimento. Como cachaça e trabalho não se misturam, as encomendas foram atrasando, os pedidos escasseando e a freguesia descontente terminou por desaparecer. O caos e a falência se implantaram dentro daquele galpão, e o pior, a falta de credibilidade terminou pondo por terra todo o empreendimento.A negra Neiva há muito sabia a razão de toda aquela tristeza, mas não falava nada, também se sentia culpada. Desde o nascimento do moleque que o marido não era mais o mesmo, mas fazer o quê se os ditames do destino pertencem aos Orixás?O nome do moleque era Deco de Ossanhã. Este nome lhe fora dado em homenagem a um jogador de futebol. Ele crescia sem se aperceber das agruras do pai. No momento de maior dificuldade assumiu os negócios, afinal, tinha que pôr na mesa o pão de cada dia, chegara sua hora e ele não tremeu. Apesar da pouca idade, sentia-se abençoado pelos deuses, tinha saúde e força para o trabalho. E começou a criar as obras mais belas que o povo do santo conheceu. Suas mãos eram capazes de esculpir em pedra, ferro, madeira, barro ou qualquer outro material que encontrasse. Com o afastamento do pai, o menino de apenas doze anos se desdobrou para nunca deixar um cliente na mão. Ele pensava estar criando para a religião e nunca, sob hipótese alguma, para a vaidade dos pais de santo, que vangloriavam-se de ter uma obra criada por ele. - Tudo que faço é para agradar os Orixás e nunca os homens, afinal, foram eles que me deram este dom. Ressaltava isso a cada entrega de um amuleto. Suas obras se espalharam pelo mundo afora, granjeando prestígio e fama. Era agora o Deco, o escultor dos Orixás.Negro Paulo continuava sua sina de desfilar pelos botecos da vila, entornando a pinga maldita e a se queixar dos Orixás, ameaçando quem ousasse lhe contrariar. - Malditos sejam os Orixás pelo que me deram. O povo do santo ouvia a tudo calado.Um dia o menino saiu cedo em busca de mais material para suas obras e adentrou na mata nativa por quilômetros. Já no topo do morro, não encontrando nada interessante, resolveu retornar. Foi quando viu um pedaço de madeira que saía da copa de uma árvore. Achou estranho, era como se aquilo tivesse caído do céu, pois ninguém teria força suficiente para atirar sobre a árvore um objeto tão grande e naquela altura.Foi com dificuldade que ele subiu pelos galhos, alcançou o pedaço de madeira e o puxou para si. Viu tratar-se de um cajado e riu-se, pensando: “Que brincadeira estranha, o Orixá dono deste cajado é Oxalá. Parece que ele veio do céu”.Quando voltou a colocar os pés no chão, sentiu uma forte dor na perna defeituosa, talvez pelo esforço de subir na árvore. A dor foi aumentando junto com uma ardência que parecia queimar a pele. Sentou-se, esperando que tudo passasse. Enquanto isso pensava em como voltar para casa. A noite estava chegando, a impossibilidade de caminhar, além da distância que teria de percorrer, começaram a preocupá-lo.Sentado no meio da relva, tendo o cajado no colo, começou a examiná-lo para saber o que teria de ser feito para dar destaque a peça. Estudou cada detalhe, queria conhecê-lo, saber de que madeira era, seus contornos e formas. Mas tudo era estranho. Primeiro não conseguia saber qual madeira era, pela rigidez perecia feito de pedra. Neste ínterim, começou a desenhar na areia com o cajado sua família e, o mais interessante, era que cada pessoa que ele dava forma logo aparecia em sua frente. Desenhou sua mãe e ela surgiu do nada, ainda vestindo o avental com que cozinhava; desenhou seu pai e ele apareceu dormindo em uma mesa de bar e quando desenhou suas três irmãs, elas apareceram com o uniforme do colégio onde estavam. Assustado, ele viu toda sua família cercá-lo e conduzi-lo até sua casa sem nada falarem, e logo após, todos desapareceram para retornar as suas lidas normais como se nada tivesse acontecido. Aquilo deixou o menino perturbado. - Preciso cuidar com carinho deste cajado, pois ele tem o poder dos Orixás.Na manhã seguinte começou a trabalhar. Tinha intensão de esculpir ao longo da madeira tudo o que se referisse a Oxalá: cavalo, caramujos, sol e pomba. Suas mãos pareciam ter pressa em executar a obra, e foi com o incentivo de “mãos à obra”, que as figuras foram aparecendo. No cabo moldaria, de longe ao longe, pequenas saliências para que quem o usasse, pudesse ter firmeza, domínio e condução. Cansado, foi dormir, não sem antes lixar parte do lugar onde pretendia colocar pequenos aros e oito corações simbolizando a Oxum.No dia seguinte, ao pegar o cajado, surpreendeu-se ao ver que tudo o que ele idealizara estava pronto. Pensou: “Isso é uma graça dos Orixás. Meu pai voltou a trabalhar, pois só ele poderia criar estes entalhes com tanta perfeição”. Foi quando seu pai entrou no pequeno ateliê e vendo o filho, perguntou o que ele estava fazendo. O menino, de posse do cajado, o alcançou para que ele visse sua obra. Quando o negro Paulo pôs as mãos na peça, o menino comentou: - Obrigado por ter criado estas figuras, elas ficaram lindas e enriqueceram o cajado de teu Orixá Oxalá Bocum. Foi o que bastou para que o pai, num ato de revolta, despencasse todo seu ódio no cajado. - Não fui eu que fiz isso, jurei nunca mais esculpir para estes demônios. Ato seguinte, juntou a peça com as duas mãos e, apoiando-a no joelho, a quebrou em duas partes, jogando-a longe. Deu as costas e saiu por onde entrou.O menino, tomado de pavor, deixou as lágrimas jorrarem. Ele sabia que seu nascimento era a causa de tanta revolta, trouxera desgraça para sua família ao nascer com a marca de Ossanhã.Retirou-se para dentro da casa e buscou no Quarto de Santo a paz para seu sofrimento. Ao bater cabeça, ouviu a voz de seu interior: “Nada na vida é definitivo, basta querer, mas querer com o coração”. Acabou adormecendo ali mesmo.Pela manhã voltou ao trabalho, tinha várias encomendas para entregar. Ao entrar no ateliê, viu sobre a mesa o cajado intacto, como se nada lhe houvesse acontecido. Ali estava sua obra, reluzente e acabada, pronta para ser entregue para seu dono de direito.Alguns clientes chegaram e ao verem tanta beleza, propuseram comprá-la, no que encontraram uma negativa. Um Babalorixá mais interessado perguntou quem havia encomendado obra tão linda, e ele respondeu: - O dono deste cajado virá buscá-lo em breve. E deu por encerrado o assunto.O tempo passou e nada se modificou. A vida transcorria como as águas de Oxum, que calmas e serenas desembocam no mar de Yemanjá. Um dia chegou o convite para uma festa na casa de Mãe Ana Paula de Oxalá Bocum, festa grande, onde estariam presentes os Babalorixás e Yalorixás mais antigos e o que havia de mais nobre da cultura e religião africana do batuque.A família inteira compareceu. Quando a festa atingiu o ápice, na reza das Oxuns, eis que entra no salão o negro Paulo, podre de bêbado, que avança e se põe no meio da roda a amaldiçoar todos os Orixás presentes, falando impropérios de corar defunto. Os tamboreiros pararam o canto e o toque. Silêncio total, aquilo era uma afronta. Mas quem poderia parar um animal grosso daqueles?Foi quando a porta se abriu e por ela pediu passagem um negro alto, todo vestido de branco. Ele avançou até o negro Paulo e o abraçou pela cintura, pedindo aos tamboreiros que continuassem o ritual. Assim que os tamboreiros recomeçaram a tocar o que se viu foi a dança dos Orixás, sim, o negro Paulo, tomado pelo Orixá Oxalá Bocum, agora executava lindas coreografias, sempre conduzido pelas mãos daquele negrão todo vestido de branco.Pausa para os tamboreiros. O homem todo vestido de branco pede por silêncio e fala: - Ninguém tem o direito de questionar a decisão dos Orixás. Somos nós quem sabemos o destino dos humanos, e a vida que vocês levam em busca do crescimento espiritual será a herança que os conduzirá à luz de seus Orixás, e nunca alguém será considerado por qualquer defeito físico, mas sim, por seus defeitos morais. Acabando de falar, ele pede pelo menino e por sua encomenda. Entra pela porta do salão a negra Neiva de Oxum, a mãe do menino, carregando o cajado de Oxalá, que o passa às mãos do menino e este às mãos do homem vestido de branco. Este, de posse do cajado, se anuncia: - Eu sou Oxalá Bocum, o dono deste cajado. Logo em seguida, apontou o cajado para o céu e em segundos o salão foi tomado por uma densa neblina que envolveu a todos. Não se enxergava um palmo diante do nariz, e no meio daquela neblina surgiu um cavalo branco no qual Oxalá Bocum montou para, num segundo, elevar-se a altura dos céus.Na manhã seguinte, no alvorecer da aurora, quando a barra do dia se anuncia, viu-se pai e filho caminhando pela floresta, em busca de materiais para suas obras.

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