O caminho das pedras

Eu conheci o Batuque (Religião Africana), em visita a uma única casa, a de minha mãe de santo, Miguela de Bará Agelú, ali na rua Outeiro. 113, no Partenon. Na oportunidade conheci minha vó de religião Jovita de Xangô Agodô. Foi o que bastou para seguir aquelas duas mulheres por toda a minha vida.
Entrando pelo portão daquela humilde casa, me deparei com o que eu denominei: “o meu mundo” ou seja: “o universo do Batuque”. do que se tornou em minha vida, o mais sagrado: o encontro com minha espiritualidade. 
Daquele dia em diante nunca mais fui o mesmo, começaram as transformações e a busca incessante do meu deus interior, meu Orixá e a corrida em busca da revelação e do conhecimento daquele universo sagrado do mundo dos Orixás.
No momento que me deparei com tudo aquilo, minha consciência disparou e naquele exato momento eu soube que finalmente eu encontrara o que estivera procurando pela vida toda.
Quando sai por aquele portão sabia que retornaria no dia seguinte, minha alma tinha sede de saber, ansiava de participar, de me integrar e me entregar, a religiosidade do batuque, que eu sabia era meu mundo, minha identidade.
Meus primeiros passos foram doloridos e confusos, próprios dos inexperientes e ansiosos por querer participar, naquele universo único, diferenciado de tudo que até então eu conhecia e rico em vida, fantástico em cultura. A cada descobertas a satisfação, ali eu estava pasmo e fascinado, como uma criança à porta de um mundo de fantasias, cercado por mistérios e magias.
A cada nova informação, de uma lenda, de uma reza de uma frente ou oferenda à felicidade do aprendizado me tornava mais sedento de novas descobertas e conhecimentos. Precisava mais e mais no sentido de me aprofundar, de me satisfazer, de aprender e dar o melhor de meu aprendizado. 
Como uma esponja ia absorvendo e acumulando fundamentos. A cada nova experiência, meu espírito ia confrontando, aprendendo e apanhando, perguntando e encontrando. Questionando e conhecendo.
Para isso eu tinha, quatro virtudes importantes que me dariam a Sabedoria das Magias do Batuque.
1- Calar.
2- Ouvir.
3- Aprender
4-Conscientizar.
Para no futuro ensinar, poder Ensinar o que aprendera. Calçado em três pilares importante na vida de qualquer homem, saber jejuar, orar e esperar, estava pronto para o caminho que me levaria na busca da perfeição, mesmo sabendo que ela não existe dentro da Religião Africana, neste universo chamado Batuque.
Minhas experiências a cada dia iam se tornando mais ricas e abalizadas, cessadas este conhecimento, buscava a seguir novos exemplos. Os lideres sempre foram para mim os espelhos, neles eu pode me refletir, me comparar, para melhor se ver, me avaliar e buscar superar. Nunca foi necessário ninguém me cobrar nada, absolutamente nada, porque eu estava ali para ser o melhor o mais fiel e dedicado filho daquela casa.
Não viera ali a passeio, viera ali para trabalhar e contribuir, me doar, me entregar a meu Orixá, viera para ficar e se possível deixar uma mensagem de fé, amor aos que eu tive a felicidade de conviver, e com eles aprender e poder contribuir e dividir a minha felicidade de estar ali e ser chamado por eles de irmão. Sabia que cada um fazia parte de minha vida e que no futuro talvez eu não os visse mais, razão pela qual sempre quis fazer daqueles poucos momentos de nossa convivência, único, singular e eterno.
Com os meus irmãos de fé, busquei aprender e compreender de suas dificuldades na luta do dia-a-dia, com os Orixás que cavalgavam seus corpos e mentes, independente de receber seus benéficos e balsâmicos axés, sempre ficou o meu pedido de saúde e felicidades a seus filhos.
Hoje posso dizer que tudo que eu aprendi da Cultura e Religião Africana do Batuque se devem graças ao meu convívio com o que existia de melhor do Batuque dos anos setenta. E olha que eram tempos difíceis, não diria que existia miséria, mas eram tempos de dificuldades, de pobreza, falta de informação, injustiças e desigualdades sociais gritantes, somadas estes obstáculos, os participantes em sua maioria trabalhavam em subempregos.
Os lideres, pais e mães de santo eram o povo negro que para ganhar o pão de cada dia, trabalhavam como Lavadeiras, carroceiras, domésticas, trabalhadores da construção civil, pedreiros e carpinteiros, ajudantes, portuários, changadores, biscateiros, gente com parcos recursos, com dificuldades para viver e manter uma família, que dirá o de dirigir uma casa de religião.
A classe média, os abastados eram os clientes, estes podiam pagar. Ao contrário, os miseráveis os famintos eram os adeptos, os filhos de santo. Isso dito hoje pode soar como um afronta aos pais de santo antigos, agora perante a burguesia elitista da maioria dos pais e mães de santo dos dias atuais, eles talvez nunca saibam o quando de dificuldades nossos ancestrais passaram para que hoje eles se locupletam com o bom axé de nossos predecessores. 
Os Batuqueiros dos dias atuais desconhecem e sequer querem ouvir falar naqueles tempos, mas só quem viveu aquela época pode falar e lembrar das dificuldades que era fazer religião (Batuque) naqueles tempos. Independentes das dificuldades próprias do dia-a-dia tinha ainda a perseguição da polícia e as agressões gratuitas da nossa Santa e Amada Igreja Católica Apostólica Romana.
Apesar de que hoje surge a Universal do reino de Deus do Edir Macedo, que mais parece um lobo faminto, a agredir e violentar o já tão perseguido e sofrido Batuque.
Isso até parece uma jogada de Marketing, é bater no mais pequeno para crescer, artimanha já muito usada pelos padres, mais olha o resultado ai, as igrejas esvaziaram, minha avó Jovita de Xangô que tinha um padre como desafeto sempre dizia ao padreco: “macaco cuida do teu rabo”. Como a dizer: “cuida do teu rebanho que eu cuido do meu” e acrescentava: “o boi engorda aos olhos do dono”. 
Resultado eles foram cuidar de destruir o Batuque e quando voltaram encontraram a igreja vazia, o povão que não é besta, tinha se transferido de mala e cuia para as Pentecostais.
O mais interessante é que não se vê brigarem entre si, agora a pouco teve até um Pastor, estes de televisão que se prendeu a dar coice na Santa Padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida, e não se viu um ai da Poderosa Igreja Católica, ficou o dito pelo não tido, e olha que aquelas imagens foram vista por milhões de católicos e saiu a percorrer o mundo.
Mas, nada que uma pequena nota em um rodapé de um jornal não desminta e umas palavras de desculpa, via assessor de imprensa não possa descaracterizar e fica o dito, por não dito. Estamos conversado e tchau e benção. O que eu gostaria imensamente ver era a Santa e Amada Igreja desmentir que durante quinhentos anos ajudou a escravizar o negro e dizimar os índios. Bem ai já é querer demais da santa fé. 
Voltemos ao texto, pois parece que me perdi, também fui cuidar da vida dos outro esqueci do meu angu, quase queima.
Mas como eu ia falando tchê, aqueles tempos, anos sessenta, anos dourados o Batuque tinha mais poesia, mas sentimento de fé e religiosidade. Aos olhos de hoje quer me parecer que só tinha dificuldade, nada mais que dificuldade, sofrimento, nada mais que sofrimento.
Mas que apesar de tudo, tinha o que de mais precioso um ser humano busca dentro de Religiosidade do Batuque e dentro de si: A fé. Parece que isso se perdeu no tempo, minha vó Jovita do Xangô dizia: “Uns fedem menos e outros fedem mais”. Era uma forma curiosa e debochada de fazer sua critica acida e feroz, com esta brincadeira, ria a bandeira despregada.
Ela sabia que crença e fé eram para poucos, muito poucos, que com o tempo a vaidade e o poder subiria para a cabeça dos mais novos e o que sobrasse acabaria por destruir os dois pilares do Batuque, a fé e o respeito. O que se vê hoje é uma competição, mais parecendo um teatro de rebolado das vedetes dos anos cinqüenta, cada qual querendo aparecer mais que o outro.
Agora a pouco no cerrar das cortinas do milênio, e com a chegada do ano 2000 o nosso Batuque contribuiu com sua parcela para o espetáculo dentro do festival de besteirol que se estabeleceu. As manchetes com letras garrafaís estampavam em capas de jornais, fotos dos mais renomados Babalorixás e Yalorixás do Rio Grandes do Sul verdadeiros Baluartes do Batuque, (pessoas com quem convivi e aprendi a amar e respeitar), anunciando que eles seriam condecorados e agraciados com títulos de Ojuobás e Cônsul, Ministros e Embaixadores, do Candomblé. 
Títulos honoríficos, conferidos pelo mais destacado nome da Cultura Africanista do Candomblé vindo da Bahia e de Brasília. Como se estes títulos pudessem dar mais dignidade e honra que o Batuque já tem. Como troca de conhecimento, cultura e intercambio religioso foi bem visto, mas como destaque prestou um desserviço a tudo que se diz do Batuque Crioulo e autêntico praticado pelo mais humilde dos gaúchos. 
Com toda a pompa, manchou a tradicional cultura e a autenticidade do Batuque, com este aparato suntuoso e luxuoso afrontou quem sempre procurou com humildade e respeito preservar a tradição, a cultura e os fundamentos. 
O Batuque não precisa deste tipo de deslumbre, precisa isto sim, de quem o respeite e o preserve, mantendo-o longe destas luzes, que fascinam e terminam por ofuscar a sua verdadeira missão. Que é o de redistribuir riqueza, dar dignidade, justiça social, preservação e reconhecimento de sua cultura milenar, e a sua função primordial: que é o de defender aqueles que vivem marginalizados de todo o processo de direito e da cidadania.
E Terminando.
Uma casa de Batuque é antes de tudo, um Centro de Cultura e Religião Africana, e acima de tudo um juizado de pequenas causas.
A de vir o dia em que finalmente aprenderemos que é preciso mudar e avançar sem que isso desabone a herança cultural da qual somos herdeiros. E haja à verdadeira magia das nações Africanista: que é o respeito aos sentimentos de fé, amor e devoção aos Orixás, e não ao extremismo dos humanos que com seus extremismos, pretensamente pretendem sobrepujar a verdadeira luz dos Orixás
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