O grito do silêncio

Se compararmos a educação alimentar dos anos sessenta com tudo o que se conhece hoje, pode-se constatar que aquela era uma época de uma pobreza cultural e desinformação que chegavam a assustar. A medicina tinha como slogan: “Gordura é sinal de saúde”.O Brasil ocupa atualmente a vergonhosa posição de 42º lugar em distribuição de suas riquezas, abaixo de Bangladeshe, além de ter um altíssimo índice de desnutrição infantil, quiçá, uma das maiores do mundo.Existem hoje no Brasil mais de 30 milhões de pessoas em miséria absoluta, passando fome. Para um país essencialmente agrícola, isso é uma vergonha para qualquer governante. A grande verdade é que se o Sociólogo Betinho não houvesse posto a boca no trombone para divulgar estes números, tudo isso ainda estaria escondido debaixo do tapete. Betinho foi o responsável por todas as campanhas de conscientização social: Fome Zero e Natal sem fome, e as demais que surgiram e se perpetuam em prol dos excluídos - os desprovidos da sorte e marginalizados do direito à cidadania. E para não dizer que não falei em flores, e que isso depende unicamente de política e dos homens que nos governam, afirmo que isto é mais uma mentira deslavada, pois tivemos dois mandados de Presidente da República exercidos também por um sociólogo, Fernando Henrique Cardoso, que ignorou esta realidade e escancarou o Brasil para tal globalização. Talvez a fome fosse uma de suas metas de exportação, somada a frase que foi slogan de sua campanha política: “Tudo pelo social”, que hoje sabe-se que significou tudo pelo elevador social. As desigualdades sociais são gritantes e as diferenças são verdadeiros abismos. No Sul do País: Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina, não se percebe de forma tão assustadora estas diferenças. Elas existem, mas em número e grau considerados suportáveis pelos governantes. O que difere estes três estados do resto do Brasil é a qualidade de vida.
Em uma ocasião estive passeando no Rio de Janeiro e pude constatar estes contrastes tão próximos. Logo após o túnel Rebouças está a praia de São Conrado; parei para olhar a beleza do mar e os gigantescos prédios, voltei-me e dei de cara com a favela da Rocinha, a maior favela do mundo. Voltemos ao cabeçalho deste texto que é a estória do meu amigo negro Ginot, a alimentação dos anos sessenta e sua cultura. Naquela época, as mães procuravam os consultórios médicos quando seus filhos não queriam comer por falta de apetite. Os médicos sacavam de um receituário e prescreviam remédios para despertar o apetite: Biotônico Fontoura, Emulsão de Scoot, estimulantes, fortificantes a base de cálcio e, o pior de todos, os esteróides anabolizantes. Além destas práticas médicas, haviam também as propagandas enganosas e mentirosas de produtos alimentares, produzidos, em sua maioria, por multinacionais, e que eram veiculadas nas rádios, canais de televisão e jornais . Nunca esqueci o slogan de um iogurte fabricado por uma empresa estatal chamada Danone: “Um Danoninho vale por um bifinho”. Aquela empresa era um grande cabide de emprego. Hoje se sabe que tudo isso é balela, pois saúde requer uma alimentação saudável, rica em proteínas e o mais natural possível.O Brasil é um país de clima tropical onde existem milhares de variedades de frutas, mas, mesmo assim, é campeão de vendas de sucos artificiais, depositando nos rins das crianças o pó de seus adoçantes.Mas o que eu quero contar é outra história e para esta abro novo parênteses.Conheci uma destas mães que tinha um bebê com meses de idade. Como ele era muito magrinho, procurou o médico e recebeu a receita de um estimulante de apetite a base de hormônios e uma caixa de comprimidos de anabolizantes. Feliz, foi para casa e a criança tomou aquele maldito medicamento que terminou por afetar sua tiróide e todo o metabolismo. Resultado: gerou distúrbios e confusão mental. A pobre mãe, inocente e ingênua, ajudou a criar os problemas que afetaram seu bebê por toda a vida. Ela queria apenas que seu menino fosse saudável, e agora, com a ação daqueles medicamentos, tinha ela um filhinho gordo e fofo para mostrar para as amigas, mas com seqüelas e confusões mentais irreparáveis.Com sete anos de idade ele ainda não falava e apresentava dificuldades para andar tal a sua gordura. Aos oito anos entrou no primário, repetindo a primeira série por mais de três anos. Afora as dificuldades de aprendizado, haviam as de comunicação e relacionamentos com outras crianças de sua idade. Era rejeitado pelos colegas do colégio por seu jeito molengão, desajeitado e dificuldades de raciocínio. Como conseqüência disso, a mãe foi aconselhada pelas professoras a tirá-lo da escola. Sua vida então girou em torno de sua casa e dos parentes que, por sua vez, também o rejeitaram. Quando o conheci, tinha ele treze anos, mas sua idade mental não passava de sete.Ginot, este era seu nome. Ou será que era Jinot? Ou será que era Gino, ou diminutivo de algum outro nome? Não sei ao certo, mas era um nome estranho. Acho que era francês. Pretendo contar a história do negro Ginot, mas antes quero destacar um fato que sempre me impressionou dentro das religiões de matriz africana e, especialmente, no Batuque, algo que foi comprovado após anos de estudos e observações: nosso Batuque tem predileção especial pelas crianças. Basta observar que nele os achêros são Orixás em estado infantil. No Candomblé diz-se que o Erê, uma segunda personagem, é o intermediário entre o Orixá e os humanos. Na Umbanda existe o culto a Cosme e Damião. Existem até os que afirmam que os Orixás são crianças. Há uma infinidade de colocações sobre este tema, mas nenhuma dá o devido valor e a real importância das crianças para todas as religiões. Para complementar, nada melhor que a citação de uma passagem Bíblica onde Cristo afirma que o reino de Deus é das crianças: “Vinde a mim as criancinhas, pois é delas o reino dos céus”. Por aí se vê que a coisa é bem mais ampla.Isso não quer dizer que nós, os adultos, nos tornemos imbecis para ganharmos o reino do céu, mas é verdadeiro afirmar que somente aqueles puros de coração serão agraciados com tal prêmio.Agora eu me pergunto: pode haver algo mais puro que as crianças?Não, não pode. Aqui afirmo eu.Voltemos ao negro Ginot, ou seria Jinot?Neste momento estamos com o negro Ginot as portas de uma casa de Batuque e tendo para recepcioná-lo e fazer as honras da casa eu, João Carlos de Odé. Nossos primeiros diálogos, se é que eu posso chamá-los assim, já que enquanto eu falava ele somente escutava, normalmente era por sinais. Com o tempo ele aprendeu a falar a minha linguagem e a compreender minha filosofia preferida, ou seja: “Dentro de uma casa de Batuque se entra mudo e se sai calado, deve-se falar unicamente com os olhos”. Pronto, fomos feitos um para o outro.O negro Ginot não falava e quando tentava, emitia um som animalesco, selvagem, um arranhado gutural horrível que me irritava e dificultava ainda mais sua compreensão. Quando ele estava nervoso, coisa que invariavelmente acontecia, complicava. Era um horror. Para entender o que ele queria, tínhamos de abraçá-lo e, segurando seu rosto entre as mãos, gritar para fazê-lo se acalmar. Isso significava gritar diversas vezes: - Te acalma, te acalma, te acalma. Isso não durava mais de dez minutos. Com o tempo eu aprendi a me comunicar com ele, ou melhor, poderia dizer que ele aprendeu a me entender, e finalmente chegamos a um bom termo.Negro Ginot amava o Batuque. Fez dele sua vida, ou o melhor seria dizer que o Batuque fez a vida dele?Ele apareceu lá pela curiosidade que todas as crianças têm, chamado que foi pelos sons dos tambores - hoje podemos dizer pelos Orixás. Foi se achegando como quem não quer nada e ficou. No começo as pessoas não lhe deram importância, o tratavam como um debilóide. Sem notarem sua presença, o deixavam sentado em um pequeno banquinho por horas a fio.Suas primeiras reações dentro do Batuque foram estranhas e cômicas. Numa noite de serão, ele se levantou de onde estava, pegou um galo e o levou até a porta do Quarto de Santo, segurando-o firme para que executassem o corte. Todos se olharam para ver quem teria coragem de tirar o galo de suas mãos, mas foi só escutarem a reza que o tamboreiro cantava para recuarem um passo atrás.- E nagorô naguia chaorô, nagô eieio, nagorô naguia chaorô, nagô eieio.A negrada se arrepiou, fez vistas grossas e deu passagem para o negro Ginot seguir em frente. Feliz e sorrindo muito, passou batido com o galo a tiracolo. Eu, considerado seu responsável e anjo da guarda, poderia ter intercedido por ele, mas cai na risada, era engraçado ver aquele menino desengonçado com aquele enorme galo embaixo do braço. Chegando a porta do Quarto de Santo ele se ajoelhou e, segurando corretamente a ave, ainda se deu o luxo de cantar para Xangô Aganjú. Claro que com aquela voz de taquara rachada.Bem, ai foi a vez da Vó Jovita cair na risada, e olhando para o negro Ginot, disse: - Finalmente teu Orixá de cabeça, Xangô Aganjú, encontrou a porta de minha casa. Daquele dia em diante o negro Ginot passou a ser considerado na casa, a fazer parte da família e participar de tudo que acontecia ali. E mais que rapidamente aprendeu a rotina, os horários, as obrigações e deveres de um bom Filho de Santo. Com o tempo descobri o que ele mais gostava: quando na casa tinha alguém de obrigação, isso era razão para ele ficar lá e não sair enquanto não fossem levantadas todas as obrigações. Ajudava a servir os que estavam de chão, carregava os pratos de comida, acendia os cigarros (já que quem está de obrigação não pode chegar perto do fogo), arrumava os cafés, lanches e limpava o salão.Dormia ao lado dos presos (quem estava no chão), mesmo que tivesse poucas cobertas para se cobrir durante o inverno rigoroso. Sem dizer uma única palavra, participava de tudo e sabia o que se passava em seu redor.As pessoas, agradecidas por seu carinho e zelo, sempre o presenteavam com roupas ou com chocolate, o que ele mais gostava. Com o tempo ficou estabelecido que naquela casa obrigação que não tivesse a participação do negro Ginot, não era uma boa obrigação, ou, na pior das hipóteses, não seria bem aceita pelos Orixás. Nas festas dançava para Orixás de uma forma desengonçada, tomava axé com todos, mas não escondia sua predileção pelas rezas e axés de Xangô Aganjú. A vó Jovita nunca se interessou em jogar os búzios para confirmar se ele era realmente filho deste Orixá, mas também não precisou. Num belo dia, quando a vó estava tocando uma mesa de Ibeiji oferecida por uma mãe em agradecimento pela graça alcançada na cura de sua filha de alguns meses de vida, foi quando tudo aconteceu.O negro Ginot, que adorava crianças, estava com a menina no colo em frente ao Quarto de Santo, sorrindo diante da fartura dos doces (ele adorava quindim), quando o tamboreiro virou a reza de Oxum para Xangô para encerrar a mesa, e repicou um alujá para Xangô Aganjú. Bem, foi o que bastou.O que se ouviu foi um grito que veio do fundo das entranhas daquele menino, dilacerando a garganta do Ginot como uma explosão dentro do salão. Aquele grito rompeu com raiva o silêncio de toda uma vida, com uma energia louca e desenfreada, desafogando o coração daquela criança que até então era muda.Ali estava quem poderia falar no lugar onde tudo fora o silêncio. Saltando por cima da mesa de Ibeiji e tendo a criança ainda no colo, foi para frente do tambor e dançou o alujá.Por meu Pai Odé! Aquilo foi de arrepiar os cabelos da nuca. O povo, em polvorosa, enlouquecidos com tamanha força e desenvoltura, estáticos e boquiabertos, assistiam pasmos aquela apresentação. Para completar tamanho espetáculo, o Xangô da Vó Jovita despencou do galho, e com ele vieram as Oxuns, Ossanhã, Xapanã, Odé, Yemanjá... E começou o festival de danças e mais danças. Uma loucura só. Por meu Pai Odé! Por meu Pai Xangô! E eu que pensava já ter visto tudo neste mundo do Batuque.Feita a chegada do Xangô do Ginot, este levou a criança até os braços da mãe que, ajoelhada, segurou a filha e agradeceu sua presença e a graça alcançada. Entre as lágrimas da mãe e a de todos que participaram daquele ato de fé, amor e devoção aos Orixás, ficou a certeza de que mais uma graça havia sido alcançada.Todos ficaram felizes, especialmente por tudo acontecer durante a mesa de Ibeiji que é feita em homenagem aos Orixás Xangô Aganjú de Ibeiji e Oxum Epandá de Ibeiji. Ficou em meu coração uma certeza: “Não a de que os Orixás são crianças, mas que as crianças são dos Orixás”.Tomei o meu axé com o Xangô do negro Ginot e agradeci aquele Orixá por sua presença, certo de que daquele dia em diante o Ginot nunca mais estaria sozinho. Não precisaria mais do padrinho João Carlos de Odé.Meses depois o Ginot partiu, deixando um rastro de bondade, amor e devoção. Negro Ginot de Xangô Aganjú, o meu menino, o preferido dos Orixás fora mandado buscar por Oxalá, por certo para ajudar em alguma tarefa mais importante. Deixou entre nós a saudade e a lembrança do menino mais puro que pisou num salão de Batuque e a magia dos que aprenderam a amar nele o grito do silêncio.

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