O manto sagrado

Confiava por demais naqueles Orixás. Nunca lhe faltou trabalho para pôr o pão na mesa e terminar de criar seus barrigudinhos. Aquele ano foi de muita dificuldades, mas, olhando em volta, no meio daquele povão onde reinava a miséria absoluta, só tinha motivos para agradecer aos Orixás a benevolência da proteção de sua família.O corpo de delicada compleição física, cansado pela idade, já não tinha forças necessárias para o trabalho braçal de descarregar navios no porto. Os anos de luta e sacrifício começavam a pesar sobre seus ombros.O Pai de Santo sempre teve para com ele e sua família uma dedicação especial. Vendo sua luta, nunca cobrou sua participação; naquela casa era considerado. Agora ele estava ali para pedir auxílio. A doença chegou em seu lar e não havia jeito de sair. Seu filho menor não sarava, e não havia remédio ou médico que o curasse.Chegou cedo à casa do Pai de Santo que precisava muito de sua ajuda. Naquele sábado se realizaria a festa de aniversário de Pai Xangô, Orixá dono da casa. Festa grande e com muitos convidados para servir, procurou esquecer seus problemas e meter a mão no trabalho, tinha que preparar o amalá, o sarrabulho, o atãm... A canja colocara cedo no fogo. Coordenou o tempero das carnes para o assador. Ali reinava a fartura.- Bem, está tudo conforme o Pai pediu, agora vou dar uma chegadinha até o barraco e ver como a negra está se virando com febre do neném. Pediu licença e saiu correndo. Chegando na vila, viu de longe a aglomeração dos vizinhos na porta do barraco. Tomou um susto e apressou o passo, antevendo o pior: “Meu Deus! O que será que houve?”Conseguiu entrar e viu a companheira abraçada no pequenino corpo enrolado em um cobertor, aos prantos e clamando:- Eu quero meu filho de volta, eu quero meu filhinho com vida e saúde. Meu Deus! Tudo menos isso. Meu Pai Ogum, o que será de nós agora?Ali todos choravam, mulheres e crianças foram tomadas de um choro convulsivo, de desespero. Tomou em seus braços o corpinho franzino do bebê e viu que o rostinho de traços delicados ainda mantinham a chupeta entre os lábios, parecendo um anjinho.- Tenho que voltar lá no pai e avisá-lo. A esta hora deve estar preocupado comigo.Chegou. O batuque seguia para seu final. Entrou calmamente, não sabia como dar a notícia. Viu que o Xangô de seu Pai estava no mundo. Caminhou em sua direção, bateu cabeça e abraçou-o com dor e desespero. Ali sentiu-se seguro, naqueles braços foi tomado de um pranto lastimoso. Foi quando Pai Xangô lhe perguntou: - Por que choras, meu filho?As palavras não saíam de sua boca, não conseguia formular um pensamento.Pai Xangô lhe falou: - Tome meu manto, volta para tua casa, envolva teu filho nele e o traga até aqui.Agarrou o mantinho encharcado de suor - dava para torcer de tanta umidade. Lembrou que sua mulher sempre lavava-os com carinho e respeito, pois eles eram sagrados, serviam unicamente para secar os Orixás. Mantos sagrados tinham o suor e a umidade dos Orixás, que só os usavam quando vinham ao mundo. Muitos humanos já haviam sido curados com o suor deles.Ele pensou: “Mas de que adianta se ele já está se despedindo do mundo? O próprio médico o desenganou, e no próximo ataque epiléptico a doença o levaria”. Mas quem era ele, um mortal comum, para duvidar de um Orixá? Não teimaria nunca, cabia unicamente obedecer ao seu Pai Xangô.Voltou e encontrou seu menino ainda naquele estado de catalepsia, com a respiração fraca. Tentou ouvir as batidas do coraçãozinho, o menino estava dentro de um ataque epiléptico. Chegou a pensar: “Agora não tem mais volta”.Abraçou o menino, despiu-o e o envolveu no manto encharcado do suor de Pai Xangô. A seguir, enrolou-o em um pequeno cobertor e saiu pela porta do barraco.Chegando lá, entrou no meio do salão com seu menino nos braços e o entregou ao Pai Xangô, dizendo: - Tome, eu choro porque meu filho está morrendo. Pai Xangô não quis pegar o menino e falou: - Deixe ele aí no meio do salão, pois se ele quiser pegar os doces que eu trouxe para ele, terá que se levantar. Dito isso, entoou seu canto: - Nagorô naguiachaorô, agô iê iê, Omodibau, lai lai...O povo, boquiaberto, dividido entre o desespero e as lágrimas, respondeu aquela que era a reza de misericórdia de Pai Xangô: - Lai lai modibau aiê omodibau, lai lai modibau aiê.Ele, de joelhos, viu quando o seu menino começou a engatinhar na direção do quarto de santo. No inicio lentamente... Devagarinho foi se chegando, primeiro com dificuldade, e depois afoitamente abraçou-se ao bolo de aniversário de Pai Xangô. Ali se lambuzou de glacê, era como se estivesse entrando em um conto de fadas e encontrasse uma festa só para ele. Foi devorando as cocadas de Mãe Iemanjá, o doce-de-abóbora de Iansã e a maria-mole de Oxalá, fazendo a maior festa, com a cumplicidade de Pai Xangô, que a esta altura fazia vistas grossas àquele banquete do moleque.O povo se prostou de joelhos diante da misericórdia daquele Orixá. Para nós que o conhecíamos, éramos apenas testemunhas de mais uma de suas façanhas corriqueiras e comuns. O menino voltou para a vida, desta vez sem o famoso Gardenal, remédio que nunca mais entrou naquele barraco.Mas, antes de partir, Pai Xangô repetiu aquela célebre frase que há dois mil anos um outro moço já dissera, e que nós, pobres ignorantes, ainda não conseguimos aprender: - Oh, homens de pouca fé.

Comments