O motorneiro

Há passagens em minha vida que marcam históricamente a evolução dos tempos, trazendo recordações de uma Porto Alegre antiga. Lembro-me que nos anos 50, na Avenida João Pessoa, quase em frente à Praça da Redenção, ficava a garagem dos bondes de Porto Alegre, pertencentes a Companhia Carris. Ao lado tinha o bar de um Português onde faziam pastéis com carne picada à faca, ovo cozido e azeitonas, coisa de deixar o neguinho vesgo de tanto comer, principalmente se acompanhados com uma Grapette. Tínhamos de ter cuidado ao comer aquele enorme pastel, porque, além do risco de queimar a boca (eles eram fritos na hora), uma mordida mais afoita poderia quebrar os dentes com o caroço da azeitona. Até hoje tenho a impressão de nunca ter comido pastéis maiores e mais substanciosos que aqueles. Para um menino como eu, de oito aninhos, mirrado, seco, quase um palito, um pastel daqueles valia por uma refeição.Sempre que meu pai ia visitar o seu amigo Danilo na garagem dos bondes, eu corria para a garupa de sua bicicleta Monark, de cor preta, pensando nos pastéis do Portuga.A profissão dos homens que conduziam os bondes era o de Motorneiro, o que corresponderia nos dias atuais aos motoristas de ônibus. Além disso, tinham os bilheteiros, ou hoje, cobradores de ônibus. Na minha memória estas duas profissões eram verdadeiras poesias, devido aos movimentos e a forma de atuação dos homens quando em trabalho. O Motorneiro dirigia o bonde em pé e o bilheteiro caminhava por todo o bonde pedindo os bilhetes e perfurando-os com uma estranha maquineta. Lindo!Detalhe, naquela época não tinham estas malditas roletas dos dias atuais, estas mesmas que entalam e ridicularizam pessoas gordas ou idosas. Eu, particularmente, as acho muito parecidas com currais ou bretes de gado das lidas campeiras, não combinando nada com a civilização moderna, dos chips e computadores.O que mais me fascinava e ao mesmo tempo intrigava, era que chegando no fim da linha, o negro Danilo simplesmente sacava a direção e voltava para o fim do bonde e fixava a mesma em algum mecanismo, seguindo a viagem de volta. Outra curiosidade era a troca de cabo de energia elétrica que punha o bonde em movimento. O negro Danilo parava o bonde e saía na rua, dava de mão em uma corda e a puxava para baixo para desacoplar o cabo de um fio condutor de energia elétrica e fixar em outro. E estava feita a mudança, pronto para seguir viagem.Para um menino de minha idade era difícil entender o manejo dos bondes. Quando estava parado, pronto para partir, não se sabia qual a direção que ia tomar, só quando ele estivesse em movimento.O fardamento do pessoal que trabalhava nos bondes era impecável: calça, camisa, casaco, quepes, botas, cintos e crachás - a lembrança mais viva que eu tenho era dos botões do uniforme que estavam sempre brilhando. Eles me encantavam, eram de bronze e estavam sempre lustrados com um abrasivo de nome Brasso.Negro Danilo dirigia o bonde que saía da frente do Hospital Psiquiátrico São Pedro, no Partenon, passava pela Bento Gonçalves e João Pessoa e terminava na Riachuelo, esquina com a Borges de Medeiros, em frente a Padaria Touro.Os locais de desembarques eram infinitos, mas, o mais charmoso para mim era o da Praça XV de Novembro, o point da cidade, com o seu chalé de mais de cem anos, local dos lambe-lambes, dos sucos de coco e da malandragem do portinho. Agora, o mais importante era que o negro Danilo era um Babalaô do Batuque, considerado uma fera no tambor e no canto para os Orixás, mestre em danças e coreografias de encher os olhos.Nos Batuques nunca tirei os olhos dele e de sua dança. Ele, sabendo da minha confessada admiração, me convidava a participar e ensaiar os primeiros passos, ainda que timidamente. Sentia-me feliz por estar dançando ao lado de um grande mestre das danças afros. Com ele aprendi que dançar é uma das formas de entrar em comunhão com os Orixás. Os passos do negro Danilo tinham a leveza de uma pluma, seus movimentos eram ritmados e harmônicos. As coreografias que executava tinham uma suavidade tal que era capaz de inebriar quem o visse dançar. Sua expressão corporal traduzia o amor pelos Orixás, e cantava com um sorriso estampado na cara e os olhos brilhando de emoção.Um dia lhe perguntei porque o Batuque tinha tantos gestos e o que eles significavam, e ele, tentando explicar para uma criança de oito anos, usava uma dialética engraçada e cômica.- Meu branco (era assim que ele me chamava), eu sou como um macaco quando imito os Orixás, eles, por sua vez, querem eternizar seus conhecimentos, razão pela qual me ensinam e eu, por minha vez, ensino para ti aprenderes, e tu vais ensinar outros e assim por diante. Assim os Orixás ficarão felizes, com a certeza de que as lendas, a cultura e as danças não irão morrer.De outra feita perguntei o porquê de tantos gestos e movimentos que os Orixás faziam. Ele me disse: - Meu branco, os Orixás quando dançam, contam as lendas e as histórias de suas passagens aqui na terra. Estes gestos representam simbolicamente as lutas, guerras, conflitos de amor, vaidade, ternura, sofrimento e paz. Ele ria enquanto me ensinava, um riso debochado e escrachado, se divertindo com meus gestos desencontrados.- Meu branco, preste atenção: os Orixás quando dançam querem ser humanos, os humanos quando dançam querem ser Orixás. Nós, quando imitamos seus movimentos, queremos ser como eles. Somos como macacos brincando com o próprio rabo.E tome-lhe risada e mais risada. Ria-se de si próprio, fazendo palhaçada de suas dificuldades, querendo com isso demonstrar que tudo que ele sabia era insignificante perante a grandeza dos Orixás.Eu era um moleque frágil e desengonçado, dançando parecia uma minhoca em terra quente. Nem por isso ele deixava de me incentivar. Ao meu lado, em meio ao som dos tambores, gritava:- Dance... Dance, meu branco, só assim seremos eternos quanto eternos são nossos Orixás. Dance na vida como na morte, mas dance... Dance que tua dor e tristeza vão passar.Entre risos e palhaçadas, um dia me cobrou uma promessa: - Meu branco, quando eu morrer, quero que tu dances para mim e para meu Orixá no meu Arissum.Nas festas de batuques ele conversava com os Orixás como se estivesse no boteco tomando uma pinga com alguns colegas de trabalho, não que isso representasse desrespeito ou desaforo, mas porque esta era sua forma de ser autêntico e verdadeiro.Negro Danilo era filho de Ogum Adiolá, o chefe guerreiro, quem nunca perdeu batalha, o detentor da obé. Nas cerimônias em que vi seu Orixá, sempre fui referendado por ele com seu axé e conselhos que até hoje obedeço.Em 1966, ano em que o Brasil foi eliminado da Copa do Mundo por Portugal, com gols do negro Euzébio, considerado o Pelé da época, e os frangos do goleiro Manga, Porto Alegre cobriu-se de tristeza. Foi numa destas discussões sobre futebol no buteco do Português, que se deu a tragédia com o negro Danilo.Sendo ele filho de Ogum, não era de levar desaforo para casa, e não é que um infeliz resolveu afrontar e desaforar o Português pela derrota do Brasil? Pra quê! O negro Danilo tomou as dores e foi para o confronto no braço. Praticante da capoeira de Angola, com movimentos graciosos mostrou para todos porque era considerado um mestre.Mas o destino tem suas quebradas, as quais ninguém sabe explicar. Num ato covarde, alguém que não fazia parte da briga, o apunhalou pelas costas. Tombou o grande mestre.Tentando salvá-lo, levaram o negro Danilo para o Hospital da Santa Casa de Misericórdia. Todos os esforços foram inúteis. Ele ainda penou por alguns dias, afinal, como filho de Ogum, era um guerreiro e não se entregaria tão fácil. Como sempre ele mesmo dizia: - Se um dia eu tombar, terá de ser de pé, não deixarei o gostinho da derrota para meus inimigos.Eu e meu pai fomos visitá-lo no hospital. Abraçou-me e falou: - Não esqueça do que tu me prometeste e de tudo que te ensinei. Dance, e a dança te levará a comungar com o teu Orixá.Danilo, negro de beleza rara, benquisto pelo mulherio da vila, deixou uma lista infindável de viúvas. O povo do batuque chorou comovido e o morro cobriu-se de luto. Os amigos se cotizaram para as despesas do Arissum. Queriam fazer uma festa para honrar tudo o que ele deixara de ensinamentos. À noite os tambores vibraram na despedida final. Dona Chininha de Yansã, Mãe de Santo do negro Danilo, dominada pela dor, mantinha firmeza na obrigação do Arissum. A mesa foi montada no meio do salão e sobre ela, tudo das frentes, feituras e tudo que a boca come. O povo aguardava para iniciar a roda de prontos e a quebra das vasilhas.Na cabeceira da mesa o último banquete do finado: um ala-minuta e, para beber, cerveja Malzebier e um samba (cachaça com Coca Cola). E tudo mais que ele adorava comer. Fiquei impressionado ao ver meu pai abrir um pacote e tirar dali três pastéis - aqueles enormes pastéis do Português, e colocá-los num prato para o finado. Então não era apenas eu que era louco por aqueles pastéis.Apesar de nada entender, eu tinha curiosidade em acompanhar tudo aquilo, minha alma de menino queria ajudar, participar, estar junto na hora da despedida.Mãe Chininha chamou um Filho de Santo e mandou me levar até minha mãe (minha casa ficava ao lado). Somente os Filhos prontos tinham acesso àquela cerimônia.Os tambores vararam a noite num som nostálgico, de dor e sofrimento. Os mesmos tambores que evocam os Orixás para trazer alegria, agora choravam a morte daquele que foi seu maior bailarino.Meus ouvidos não podiam suportar o som e o canto. Tinha a impressão de que meu quarto estava colado ao salão onde acontecia a cerimônia. Resultado: fugi e fui para frente da casa. Me escondi atrás da casa do Bará Lodê de Dona Chininha de onde eu podia ver tudo o que se passava no salão.O tamboreiro negro Zé de Yemanjá, filho carnal de Dona Chininha, com lágrimas nos olhos, revelava em seu toque e canto o sofrimento da perda.Na cabeceira da mesa, sentado e de costas, uma figura que eu nunca esqueceria. Mesmo à distância eu podia ver o meu mestre: negro Danilo de Ogum, saboreando sua última refeição.A cada garfada que ele levava a boca eu sentia o gosto na minha, cada gole de cerveja que ele tomava, descia em minha garganta, inebriando os sentimentos. Quando começou a comer os pastéis, pude entender o mistério que nos envolvia. Ele sabia que eu gostava daqueles pastéis e sempre me oferecia um quando íamos visitá-lo. Agora eu comia os três com grande prazer e satisfação. Cada mordida naqueles pastéis era intercalado com um gole de samba. Bucho forrado pelas iguarias daquela mesa, fiquei honrado por meu mestre ter dividido comigo seu último banquete e feliz em estar participando dos mistérios de um Arissum. Ainda pensei: “que bobagem este tal de Arissum, isso aqui é muito do bom”.Quando os tambores tocaram para as despedidas finais, eu estava sentado em frente a porta da casa do Bará Lodê comendo um farto prato de arroz com galinha, com os dedos lambuzados. Ao levantar os olhos em direção a porta, vi o negro Danilo me convidando para dançar. Fiquei indeciso entre a dança e a comida. Mas, como não poderia fazer esta desfeita ao meu amigo Danilo, larguei o prato e tentei me levantar para ir ao seu encontro. Foi quando senti as pernas bambas, parecia que a cachaça e a cerveja não tinham descido muito bem, pois não conseguia me firmar de pé.O interessante é que comecei a achar graça de tudo aquilo, acompanhado pelo Danilo que se contorcia de tanto que rir do porre que eu havia tomado. Experimentei várias vezes me levantar, mas a cada tentativa, tomava um outro tombo e enlameava ainda mais minha calça. Durante a noite havia caído uma librina fraquinha, mas o suficiente para embarrar a frente da casa. Foi quando duas mãos fortes me seguraram pelos fundilhos e me conduziram para dentro do salão. Era meu pai, furioso por minha bisbilhotice.Colocado de pé, consegui me equilibrar. Dona Chininha prendeu o grito com meu pai e com meu amigo Danilo: - Aldino, solta o moleque e deixe-o dançar, porque ele está tomado pelo Danilo. Danilo, negro infeliz, toma cuidado com este menino.Livre e solto, sujo e embarrado, bêbado e anestesiado, fui conduzido pelas mãos do negro Danilo e dancei... Dancei alujás, locori, odãs e tudo que o tamboreiro tocou naquela noite. Numa apoteose final me esborrachei no chão. Acordei três dias depois com a maior ressaca do mundo e uma baita dor de cabeça. Até hoje três coisas não posso ver: pastéis com ovo, samba e a tal de ala-minuta. Quanto ao Negro Danilo, às vezes aparece para bater um papo.
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