O Pássaro da Liberdade

 
Sete e meia da manhã, fim da festa do Batuque. Todos sonolentos esperam receber seu pedaço de bolo e seu copo de atãm. De repente, um beija-flor irrompe no meio do salão, feito um convidado inesperado. Voa de um lado para o outro, se acerca de algumas pessoas que temerosas de machucá-lo procuram mostrar-lhe a saída. No exato momento em que o ultimo Orixá se despacha cantando suas rezas de despedida entregando a festa.
 
Odé sumalaia sesçumalê Odé sumalaia sesçumalê
Orô, orô cundê Odé sumalaia seçumalê male.
 
Todos voltam os olhos para o Orixá aguardando sua atitude, ele calmamente volta-se e manda parar os tambores e levantando o braço oferece à mão para que o pássaro venha descansar. O povo cala e pelo silêncio que se fez pode-se ouvir o bater das asas do passarinho.Todos ficam boquiabertos, pois ele aceita e vem pousar na mão amiga que lhe é ofertada. O pequeno pássaro bebe do suor que escorre no rosto do Orixá, parece matar sua sede.
 Como se houvesse um colóquio entre ambos, o sorriso estampa na boca do Orixá ora ofertada ao pássaro como um cálice de mel onde ele sorve a doçura e meiguice de Odé o deus da caça e do alimento. A seguir ele parece despedir-se do Orixá e dando novos vôos pelo salão e repentinamente encontra a janela, desaparecendo tão rapidamente quanto chegara.
Será isso a liberdade? Um pássaro frágil e bonito que roça com suas asas as nossas vidas e some deixando em nós um gostinho de quero mais? Será a liberdade um minúsculo pássaro que mãos torpes e cruéis podem esmagar a qualquer momento? Para um ex-preso político como eu, a liberdade é tão indispensável quanto o ar. E embora invisível como ele, posso senti-la preenchendo meu coração e me fazendo sonhar, assim como o ar estufa meus pulmões e faz continuar a viver.
Mas a sinto mais fortemente quando a querem roubar de mim, como alguém a quem repentinamente é subtraído o ar. Sufoco, sinto-me morrer. Anseio por ela que é minha musa inspiradora.
Sinto-a nas madrugadas, onde o silêncio é mais silêncio e diz muito mais ao meu coração, enchendo-me de poemas e solidão.
Sinto-a na chuva que cai indistintamente sobre o rico e o pobre, sobre o bandido e o honesto, sobre o crente e o ateu.
Sinto-a no mar, no imenso mar de Yemanjá, nas suas águas que ninguém exceto ela e Oxalá podem dominar.
Sinto-a em muitas ocasiões, mas também sinto a sua ausência em tantos outros momentos.
Tenho medo que alguém a roube de mim para sempre. Por isso me fecho, me escondo atrás de ironias, deboches, insultos. Escondo a minha dor e a minha solidão no fundo de mim, desconfio dos outros e os policio a todo instante para surpreendê-los antes que me surpreendam.
Neste momento amargo que estou vivendo, como o meu prato de merda sozinho, protegendo-o como um cão feroz, simplesmente para que não me tirem também o direito de sofrer em liberdade, já que não me permitem ser feliz. Ou será que sou eu mesmo que me imponho às barras que forma a minha prisão?
Será que alguém é realmente livre? Afinal estamos sempre presos a alguma coisa ou a alguém: família, casamento, trabalho, religião, clube de futebol, etc. Isso nos dá alegrias... E preocupações que acabam cerceando nossa liberdade. Mas será que realmente essas coisas podem nos prender?
Pode-se, certamente, prender o corpo como fazem com os prisioneiros políticos, mas e a alma? Torturam, invalidam, quebram a vontade e o controle que um preso considerado subversivo tem sobre si mesmo, porém quando chega à madrugada, escrevo poemas com um pequeno prego na parede de minha cela.

 
Estou doente.
Dos olhos, da boca, da mente até.
Dos olhos que viram mulheres perfeitas.
Da boca que disse poemas em brasa.
Da mente manchada de fumo e café.
Sinto morrer.
Mas saiba que antes de morrer, eu quero um punhado de estrelas maduras.
E a doçura do verbo viver.
Mas viver eternamente em busca do pássaro da liberdade de ser. 

 
Mas, o que eu gostaria imensamente de saber: é quem é mais livre? Se for aquele que torturou fanatizado por idéias e ideais ou se é aquele que transcendeu a dor e encontrou alívio dentro de si mesmo? Se a tortura física ou psicológica é muito forte o prisioneiro acaba fugindo, seja pela fuga real, seja pela alienação ou pelo sonho, ou pelas recordações de momentos mais felizes, ou, ainda, pela morte. E se ele foge quem se sente torturado pelos ressentimentos é o próprio torturador. E o mesmo acontece em outras situações da vida, como num casamento, por exemplo. Muitos casais ou um de seus membros usam o status social, os filhos ou a situação financeira para manterem-se atrelado um ao outro. Conservam tudo isso e ganham o corpo, embora este possa também se envolver com outros corpos, mas perdem a alma.
Então, não há prisão de verdade? Não afirmaria isso tão rapidamente: há prisão maior que a dor de um pai que vê seu filho chorar de fome? E o que dizer daqueles que vivem suas vidas presos a corpos deformados? Ou daqueles que estão encarcerados em suas próprias camas por serem doentes? E daqueles que morrem sem ter vivido? Que liberdade eles tiveram para escolher seus corpos, suas vidas?
Há alguém livre de verdade? Ou livre da verdade? Não, não há! Todos somos prisioneiros de alguém ou de alguma coisa: da família, da moral, da sociedade com suas hipocrisias, do estado, das leis, ou de alguma religião.
De repente, escuto risadas e vejo o filho que há pouco chorava e seu pai, brincando com bolinhas de sabão, esquecidos da fome... Não estão eles neste momento livres como passarinhos?
E mais adiante percebo que o aleijado supera seus limites físicos e avança pela vida com mais dignidade do que muitos ditos normais. Não será ele mais livre do que muitos destes?
É, creio que a liberdade seja realmente um frágil, belo e minúsculo pássaro que esvoaça sobre nossas cabeças: uns pensam que para conservá-lo a seu lado devem armar arapucas e trancafiá-lo numa gaiola, alegando muitas vezes que o estão protegendo.
É, a liberdade é muito estranha! Há outros pensam que nada precisam fazer para conquistá-la, são os comodistas que preferem ficar sentados esperando a vida passar a lutar por aquilo que acreditam. Há os pessimistas que pensam que nunca vão encontrá-la e os artistas que quando não a vêem de verdade, criam-na com sua imaginação. E há aqueles que simplesmente são humanos, que oscilam em sua confiança, que temem perdê-la e se alegram ao reencontrá-la.
Felizes os convidados para a ceia da vida. Felizes aqueles que têm a hombridade e a confiança de dividir seu prato, ainda que seja de merda, com quem o ama, pois estes encontrarão a solidariedade, a admiração e o respeito por serem autênticos e passíveis de erros como todo os humanos são.
Felizes aqueles que encontram o pássaro da liberdade e o dividem com outras pessoas porque estes herdarão, senão o Reino dos Céus, pelo menos, o amor incondicional daqueles com quem repartiram esta dádiva. Felizes são os que acreditam ou pelo menos sonham com a liberdade cujo codinome é Beija-flor, o pássaro da liberdade.
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