O Trapesista e o Aparador

O trapezista e o Aparador.
confiança, confiança, confiança.

Perguntado por meu filho de seis aninhos Paulo Roberto de Odé, se eu o seguraria, ele estava em cima de uma árvore e preste para saltar nos meus braços de uma altura considerada perigosa. Respondi com outra pergunta: Você confia no Pai? Ele me respondeu: Só a confiança no Pai Odé e nos seus braços me faz pular daqui.
Ele saltou e eu o Aparei.
Sentamos para lanchar e assim podermos conversar.

Sabe meu filho a vida é como um circo, os artistas são os protagonistas e os coadjuvantes é o povo que acorre para as arquibancadas. Estas pessoas estão lá à espera do desfecho final. Boquiabertos e com os olhos voltados para o alto, onde três pessoas, os artistas desenvolvem os malabarismos harmônicos e graciosos onde os perigos dançam aos olhos dos participantes. Mas veja, observe que todos aguardam pelo salto mais audaciosos o salto triplo. Foi para ver este que eles pagaram o ingresso e todos aguardam com grande expectativa sua execução. Um dos personagens é o trapezista o outro é o aparador e um terceiro é uma moça que é o alvo da disputa. Observe e veja que o aparador esta lá em movimento contínuo aguardando o salto do trapezista, este flutua num ir e vir num movimento de leveza e graça, abaixo o aparador aguarda com os braços aberto e as mãos em posição de espera, as mãos do outro. O trapezista concentra-se para aquele que será o salto mais audacioso de sua vida, é preciso coragem e determinação para executá-lo. Dois homens num momento da vida e tudo que os inspira e lhes dá coragem é a confiança, sim a confiança é recíproca e verdadeira, é a certeza que o outro estará lá esperando com ambas as mãos para apará-lo.

Para o primeiro é quase um voou cego, mas que carrega a certeza da confiança que o outro vai estar lá esperando para apará-lo, esta certeza ele carrega que o outro não vai falhar. Tudo isso executado em uma fração de segundos.
Observe que o povo em sua maioria torce pela falha, ou melhor, pelo fracasso do aparador e a desgraça do trapezista que fatalmente terá o solo para se espatifar e o aparador falhar, é a tragédia. Vejam e comparem e verão que a vida imita a arte, também é assim em nossa volta, os nossos desafetos torcem pela nossa derrota pelo insucesso. Todo homem que ocupa um cargo de destaque que atinge um sonho fruto de seu trabalho sabe que em seu caminho sempre encontrara este tipo de torcedor. Assim também é no Batuque, é só alguém ter destaque e um relativo sucesso a seguir encontrara os pobres de espírito que se aglutinam em torno da idéia do fracasso do outro, tal qual o espectador do circo a espera da derrota. Assim também é numa família religiosa do Batuque observe quanto um dos filhos de santo sai pela porta e salta para o que o destino lhe impôs ele também espera que o outro pela qual ele ofereceu toda a sua vida esteja lá esperando para apará-lo, e aqui a surpresa maior, neste no momento mais difícil da vida, o outro vai recolher os braços e deixar o companheiro se esborrachar na terra. Assim é a vida e assim será. A eterna ingratidão.
Aqui fica a certeza: para aquele, pela qual ele sacrificou toda a vida, vai optar pela predominação da lei de Gerson, (ter vantagem em tudo), ou seja, que nesta hora vai predominar o espírito de sobrevivência e ele vai pensar somente em si e adeus para quem pensa diferente.
E nada poderá mudar esta que é uma das leis e índole do ser humano não admitir fracasso, ele tem que sair vencedor, do contrário vai ajudar a empurrar o outro ladeira abaixo. E é o que a maioria faz, viram as costas e sai atirando, desfazendo. caluniando, agredindo, difamando aquele que tudo fez para seu engrandecimento. O reconhecimento nunca vira.

Hoje como eu gostaria de saber que em minha vida eu também encontraria um Aparador a me esperar, já que em toda a minha vida sempre ocupei o cargo de Aparador, nunca me vi como a estrela do Batuque, sempre fui o coadjuvante, o Mestre sala da passarela, sempre fui escada que muitos usaram para crescer. Eu ali ao lado torcendo pelo sucesso dos que me cerquei, para depois ter todo o meu trabalho posto em Xeque. Agora eu pergunto: Valeu a pena? E eu mesmo respondo: Tudo vale a pena quando a alma não é pequena. E encerro este texto com uma única afirmativa, sendo Odé filho de Yemanjá, Minha alma é grande como o mar de Yemanjá e nada é maior que o mar de minha Mãe, a não ser meu Orixá Odé Olobomi o Caçador de lobos.

João Carlos de Odé.
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