Negro Danilo de Ogum

O Visionário
 
 
O negro Danilo era respeitado no meio da Batuqueirada do Partenon. Acreditem, todos que conheciam sua história e feitura e os longos anos de dedicação e aprendizado dentro do batuque sabia, ele era um dos mais importantes filhos de santo de mãe Chininha de Yansã. Dentro da lista dos nomes mais fundamentados da nação Oió, ele era considerado um dos herdeiros dos fundamentos.

Mas, o que o tornara famoso no meio da batuqueirada não fora seu Orixá, Ogum Onira, mas a fama de ser espiritado. Aqui para quem não é do batuque uma pequena explicação: espiritado é a pessoa que vive enxergando coisa dos espíritos. Coisa que convenhamos o povo do batuque dispara léguas de campo, temendo este tipo de maluco e suas elucubrações.

Mas, dizer o quê! Falar o quê? Quando o negro Danilo de Ogum era considerado um ícone da cultura e religião africana! Resta-nos ter que agüentar calado, ou como diria meu irmão Roberto de Ossanhã: “Agüenta! Agüenta firme, Deodé, um dia ele cansa”. E todos nós esperávamos que um dia ele parasse com aquelas adivinhações e percepções doentias, somadas às mensagens ocultas e subliminares.  Até sua mãe de santo segurava no osso do peito, as enxergações e visões do mundo dos Orixás explanadas pelo negro Danilo de Ogum. Antecipo que somente ele detinha este poder mágico entre seus irmãos de santo. Mesmo que todas estas histórias fossem de doer na alma dos viventes.

Na época, o negro Danilo trabalhava na C.R.T (Companhia Riograndense de Telecomunicação), recebia um bom ordenado, e vivia com uma certa abundância em sua qualidade de vida. Independente disso, sua companheira trabalhava no INPS, no cargo de secretária. Somado, os dois salários dava para criar e educar as duas crianças e viver abastado. Boa casa, bom trabalho, e uma fusca na garagem a lhe outorgar o título de burguês da vila.

As tardes de sábado com o tempo livre, eu e meus irmãos de santo íamos visitá-lo, mas era só passar o portão para ser recebido com a derradeira frase, capaz de derrubar elefante: “Bem que o teu pai Odé me avisou: meu filho virá ter contigo hoje à tarde”. Aquilo me punha louco de raiva, mas fazer o quê! Quando o negrão era só amor e gentileza, somada a isso, sua recepção aos irmãos do batuque era qualquer coisa de dar inveja. Deslumbrantes comensais, muita caipirinha, carne assada, maionese, tudo regado à cerveja gelada. Declinamos de corrigi-lo ou contrariá-lo e passávamos à cozinha para nos fartar e dar o devido desconto às visões quixotescas do negrão Danilo.

Ao som do pagode, aguardamos que fossem servidos as sobremesas, sagu com creme branco. Coisa de louco, tchê. O resto, bem, é o resto, deixa pra lá as percepções do negro Danilo de Ogum.

Às vezes a boca pequena e cochichos ao pé da orelha ele não perdia a oportunidade de confirmar algumas de suas previsões: -Eu não te disse Deodé, que a negra Isaura de Oxum ia se amancebar com o negro Armando de Xangô. Eu cá com meus botões pensava: Sei lá quem é essa tal de negra Isaura de Oxum e o tal de negro Armando de Xangô. Mesmo assim confirmava, balançando a cabeça, embora desconhecendo seu vaticínio anterior. Não podia me dar ao luxo de perder aquela boquinha. E tome-lhe cerveja gelada, a rega-bofe.

Nas noites de serões e obrigações tínhamos que ter muita paciência com aquela mala sem alça e suas frases despudoradas, soltas em hora imprópria: -Olha Deodé, aquele galo vermelho, (já apontando para o pobre bichinho), o Bará Ajelú não vai aceitar, o filho dele deu de má vontade. Ou outra mais atrevida: Aquela negra deu ares de conhecimento dos fundamentos dentro do quarto de santo, por isso a Oxum não vai chegar, o Zé não vai aparecer, tá em dívida com seu Orixá. E por aí se seguiam suas previsões e adivinhações. Mas o pior é que tudo que aquela boca maldita vaticinava acabava por acontecer, o galo na hora do corte saltou pela janela e se foi a rua e, para completar na reza da Oxum o tamboreiro se rasgou de cantar e nada da Oxum aparecer, quer mais? E pelo Zé estamos até hoje esperando.

Alguns irmãos de santo até disparavam do negrão, tinham medo de suas visões e previsões, outros até caçoavam de seus contatos imediatos de primeiro grau com o mundo dos Orixás. Independente disso tinha dias que ele abria a bateria de sinais, avisos e advertência e matraqueava mundo afora o poder de destruir ou enaltecer alguns fatos, ou alguma personalidade de destaque nacional do meio religioso, bem como político ou empresarial, artístico e futebolístico. E tome-lhe aviso e mais aviso, parecia uma metralhadora disparando para todos os lados, do tipo: O jogador tal não vai ser convocado para a seleção brasileira de futebol. O ator tal vai ser dispensado da novela da Rede Globo, o Silvio Santos vai errar no qual é a música. E por aí se seguia a grande viagem de disparates e chistes das percepções dos Orixás, aquela língua de trapo passava a tarde de domingo em frente da televisão a detonar os célebres e nobres da mídia eletrônica televisiva.

Teve uma vez que ele insistiu tanto em uma previsão macabra que ela aconteceu da noite para o dia: um famoso jogador de futebol se apegou de doença desconhecida. Agora vem a parte principal: com os axés do negro Danilo o rapaz obteve a cura e voltou a correr pelos gramados do país.

Numa outra oportunidade em um batuque no Morro da Cruz logo após a balança ele me chama para a rua e solicitou-me: - Deodé, volta lá no salão e observa o Ogum do compadre Zeca. Fui e depois de longo período observando a dança do Orixá do compadre Zeca. Voltei e relatei que nada vi de interessante ou anormal que merecesse destaque, seja ele positivo ou negativo.

-Mas como, Deodé! Tu não viste que o Ogum está triste?

-Não, não vi isso que tu estás afirmando. Foi quando ele vaticinou:

-O compadre Zeca tem pouco tempo de vida, com aquela dança, o Ogum já está se despedindo. Meu Deus! Este negro enlouqueceu? Aquilo me irritou, este infeliz já foi longe demais, deu para enxergar coisas até na cabeça dos Orixás.

Tempo depois a notícia explode na vila: O compadre Zeca de Ogum cufou. Não dei o braço a torcer, pensei: isso é mera coincidência. Mas sabia que não era, ele acertara na mosca. Como... Sei lá! Mas, que aquele exu preto tinha realmente o poder e a magia de falar com os Orixás e decodificar suas percepções, isso ele tinha. Benza a Deus! Mas, o povo maldoso caçoava do falastrão chamando-o de espiritado, visionário, enfim maluco de cara limpa.

Em outra ocasião, Batuque no Morro da Cruz, casa de pai Adão do Bará Ajelú, festa rolando, beleza pura. Eu solto das patas dançava mais faceiro que burro no azevém. Não é que o negrão teve o despautério de me sacar da roda, me pegar pela mão e com um grito de comando dizer. “Vamos, Deodé que a merda vai pegar no tamanco”. Fui furioso, onde já se viu sair de uma festa sem se despedir! E fomos pelos becos e vielas, em correria desenfreada morro abaixo, parecia que fugíamos da policia. Cansado de tanta pressa sem saber o motivo estanquei de vez e exigi uma explicação. – Tche negrão, o que é que te deu desta vez? O que é que tu viste para sairmos feitos loucos do Batuque do negro Adão do Bará Ajelú?

-Deodé aquilo vai terminar a bala, os desafetos do negrão chamaram a polícia.

-Mas como tu sabes disso?

-O teu pai Odé que me avisou e pediu para eu te tirar de lá, pois tu és metido a besta e ias apanhar também.

-Agora chega, negro desgraçado. Deu pra ti, tu não respeita nem o meu Orixá. E completei: Vai a merda negro filho da puta, me respeita. E saí fora e deixei o negrão conversando sozinho, era um basta, tô cheio destas baboseiras, chega, deu pra ti. Me mandei.

No outro dia à tardinha eu soube que a merda tinha pegado no tamanco, o Batuque havia terminado a tiros, afora os feridos, a polícia fechou o morro. Que baita demanda, coisa forte, quizila das boas, feitiçaria da grossa, macumbaria tremenda. E agora José, dizer o quê! Fazer o quê? À noite baixei a crista, pus a cola no meio das pernas e fui pedir desculpas ao negro Danilo, total ele tinha me tirado de uma enrascada.

O pior era ter que agüentar a gabolice do negrão. Recebeu-me com ares de pouco caso e ainda por cima com jactância e orgulho ele me passou uma reprimenda. - “Tu tens que ouvir mais o teu orixá e obedecer, coisa que tu burro e teimoso não faz”. Agora eu me pergunto: Pode, ter que agüentar estas gabolices? Tem quem não acredite. Azar. Daquela data em diante passei a acreditar.

O negrão deu uma melhorada de vida e mudou-se da vila de mala e cuia, foi morar em um apartamento na avenida Bento Gonçalves e perdi o contato.

Passados alguns anos fui a um batuque em Viamão e veja com quem eu dou de cara: ele, o negrão Danilo de Ogum. Continuava o mesmo, não mudara em nada, o mesmo visionário, o mesmo espiritado, sempre com seus prenúncios, avisos e advertências. Não me importei, gostava dele e nada me faria mudar de sentimentos, gente boa, a mais fina flor de amizade sincera.

Na volta percorremos junto o caminho de mais de 10 quilômetros entre a vila Santa Isabel em Viamão e a vila São José em Porto Alegre. Pelo caminho ele passou a me relatar o horror que sua vida se tornara. Havia sido abandonado pela mulher e o pior para ele, um machista de carteirinha, levar um par de chifres era o fim da picada. Abandonado pela mulher e os filhos, dera para beber, com isso perdera o emprego. Para viver, trabalhava de changueiro no porto à beira do cais descarregando navios de farelo e adubo. Meu Deus! Que horror se tornara à vida daquele vivente.

Naquela noite eu ouvi pela primeira a vez à frase que explodiu em minha mente: -Sabe Deodé eu estou comendo o meu prato de merda sozinho, não chamei ninguém para dividir comigo, mas sei que tudo isso tem seus dias contados para terminar, pois meu pai Ogum nunca me abandonou, ontem mesmo ele me apareceu e disse: “Quando tu não agüentares mais teu sofrimento, me chama eu virei te buscar”.

O que me surpreendeu foi que mesmo naquela miséria havia dignidade e respeito a seu Orixá, Ogum Onira, o amor e a cumplicidade e o companheirismo era a marca que os unia, ele não estava só, tinha seu orixá para lhe aconselhar. E quem era eu, um fedelho, um buri do Batuque, para orientar tão ilustre mestre no relacionamento com seu Orixá. Calei-me, mas no fundo de meu coração pedi pela misericórdia daquele Orixá: Não demore, meu pai Ogum, não demore, não deixa teu filho sofrer tanto assim.

Os amigos mais chegados o viram remexendo latas de lixo em busca de comida, e ainda comentavam de suas bebedeiras nos bares da volta do Mercado Público, quando aos gritos enfrentava os soldados da P.M: -Me respeitem seus filhos da puta, eu sou filho do comandante, do chefe  supremo da cavalaria, o guerreiro, o protetor da Brigada Militar. Desafiando os soldados a o enfrentarem. Brigava e levava surras de borrachas até ficar caído no chão. Ao saber destes atos de covardia, me punha louco de raiva, ainda mais me sentindo sem condições de poder fazer alguma coisa por ele.

Mas, em minha mente eu pensava: O que uma mulher pode fazer na vida de um homem? Assim como pode construí-lo, pode destruí-lo.

Uma noite de chuva fria, de inverno rigoroso quando o vento Minuano sopra na beira do rio Guaíba, eu corria para pegar o ônibus, no que fui impedido por um bêbado que me agarrou por trás, me virei e dei de cara com ele. Estava imundo e maltrapilho, bêbado de não poder se manter de pé estava mais para um pudim de cachaça. Ao me reconhecer se pegou aos gritos a todo os pulmões: Eis aqui meu irmãozinho Deodé, o filho do rei de Ketu, o filho do caçador, o menino do bodoque, o pai da fartura.

–Deodé, tu não vais deixar teu irmão com fome? Vai? Que baita cagaço ele me deu.

Abraçado ao pinguço entrei no primeiro boteco que encontrei na volta do mercado. Procurei uma cadeira e sentei o cristão e perguntei o que ele queria comer e beber.

 –Olha Deodé, quero comer um churrasco e uma cerveja em homenagem ao meu pai Ogum para comemorarmos nosso reencontro e o dia de hoje. E foi o que fizemos, mesmo que o português dono da bodega se negasse a fazer a tal carne assada, mas vendo o dinheiro, mais que depressa providenciou o pedido.

E ficamos a prosear por longas horas esquecidos que a noite chegara para ficar, tinha que voltar para casa e resolvi me despedir, foi quando ele disse:

-Deodé, me leva no Campo da Tuca.

-Não tem problema eu te deixo lá.

Dizendo isso passei meus braços em volta de sua cintura e comecei a caminhar em direção da parada do ônibus. Foi só acomodá-lo e ele se pegou em um sono profundo, assim eu pude fazer uma melhor avaliação do homem que ele fora e do farrapo que agora eu carregava. Pelo peso ele estava com menos de cinqüenta quilos, sujo, embarrado, sem banho, fedendo a mijo e cachaça, ali estava um trapo onde antes existia um homem nobre, fino e respeitoso. A dor que sentia naquela hora foi de raiva e ódio pelo destino desgraçado que o escolhera para aquele fim. Olhando pela janela do ônibus misturei minhas lágrimas com as gotas de chuva. Foi quando senti junto ao meu rosto seus dedos encardidos e fedidos, buscando puxar meu rosto junto ao seu. Voltei-me e ele colou sua boca junto ao meu ouvido como se quisesse me contar algum segredo.

 -Deodé,  eu já te contei que meu pai virá me buscar?

-Sim eu sei. Falei aquilo da boca pra fora, para não contrariar. Ele concluiu:

-Pois bem Deodé: É Hoje. Dito isso voltou a dormir.

Voltei meus pensamentos ao passado lembrando-me do tempo que ele era considerado um mestre da Cultura e Religião Africana, sim, ele fora um exemplo de dedicação, amor  e carinho pelos Orixás. Mas, eu me perguntava a toda hora o que dera errado para tudo aquilo acontecer? Perguntas sem respostas que nem o tempo conseguiu me responder.

Chegamos perto do fim da linha, despertei-o para que pudéssemos descer do ônibus, nossa parada estava próxima. Ele naquela calma me diz:

-Deodé, tu me leva até o Campo da Tuca.

Aceitei e desci e caminhamos um bom bocado. Quando chegamos perguntei onde era sua casa?

-Eu não tenho casa, Deodé, eu moro no mundo.

Meu Deus! Pensei: mais está!

-Deodé, tu me leva para a beira do mato, perto do campinho e me deixe ali, pois hoje tenho um encontro com meu pai Ogum, hoje ele vem me buscar.

Pensei: desta vez ele endoidou. Caminhamos mais alguns metros, ele empacou.

 -É aqui. Podes ir embora.

-Como posso ir embora Danilo e te deixar assim? Quero ficar contigo, não posso ir.

No meio daquele temporal terrível ele se pegou a conversar com as matas, com o vento, com a chuva, com os raios, e tome-lhe conversas misturadas com gargalhadas. No meio da chuva, naquele lodaçal ele dançava e cantava o canto de seu Orixá.

Onira epêê Onira epê Ogum Anirê
Onira epêê Onira epê Ogum Anirê
Ogum Onira euatauá Ogum Anirê

Olhando o relógio e vendo o adiantado da hora, eu me perguntava: será que isso tem hora para terminar? Foi quando ele apontou para a estradinha e dizendo:

-Veja, Deodé, lá vem meu pai Ogum em seu cavalo branco com sua espada na mão, ele vem me buscar. Olhe, Deodé, veja Deodé, veja Deodé, é ele meu pai Ogum.

Por mais que eu me dispusesse e por mais boa vontade que eu tivesse, a única coisa que eu via era o cavalo, e a carroça do negro Dão que voltava da Ceasa abarrotado de frutas, dirigia-se para dentro da vila. Era isso que eu via, mas ele o espiritado e visionário via seu pai Ogum que vinha lhe buscar. Pobre louco, eu ainda pensei: pelo menos é um louco feliz.

E o cavalo e a carroça foram se aproximando e quando estava bem próximo, ele saiu em louca disparada de braços abertos de encontro ao cavalo, aos gritos:

-Obrigado, meu pai Ogum, obrigado.

Tive que segurá-lo para que o cavalo não passasse por cima do infeliz. Foi quando um raio espocou sobre nossas cabeças e o cavalo empinou e com as patas apontadas para o céu relinchou. Aquilo me causou o maior susto que caí sentado de bunda no meio do barral. Os raios pipocaram no meio do temporal, eu sentado no meio do barro voltei meus olhos para o alto e então eu pude ver o grande cavaleiro, o guerreiro, aquele que nunca perdeu batalha, o detentor da obé, o senhor da guerra. Sim, ele prometera e viera cumprir sua palavra: Quando tu não puderes mais carregar tua cruz me chama, e eu virei te buscar.

Ali estava ele, Orixá Ogum Onira, o guerreiro, senhor da guerra viera buscar seu filho e acabar com aquele sofrimento. E foi o Ogum se abaixar e estender a mão e ter entre as mãos à do seu filho, negro Danilo de Ogum, firme e confiante. Foi um puxar e o trazer para a garupa do cavalo. A seguir um tropel se misturou com os raios e trovões, e o vento frio do Minuano que soprava, a névoa os envolveu dentro do breu da noite. Era capa do Orixá Ogum a cobrir aqueles dois. E assim desapareceram.

Ainda hoje as pessoas céticas me perguntam se eu vi isso tudo acontecer, no que eu respondo: isso é lenda gente, bobagem, coisa de gente espiritada, me poupem. Mas sei que existem uns poucos abnegados que acreditam, estes são os puros de coração, os que têm crença, fé, amor e devoção nos Orixás.

Quanto a mim, tenho dito e quem souber que conte outra.

Onira epêê Onira epê Ogum Anirê
Onira epêê Onira epê Ogum Anirê
Ogum Onira euatauá Ogum Anirê.

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