A Fuga das Galinhas

A Fuga das Galinhas

Quando a negra Etelvina tomou consciência que tudo que estava passando era fruto de feitiçaria da grossa e que aquilo não era coincidência do destino. Sai rua afora aos berros, não podia mais agüentar as agruras de vida e as dificuldades que estava enfrentando, somada a alguma mãozinha tenebrosa que algum filho da puta estava lhe empurrando.

A noite buscou ter uma resposta plausível do porque isso estava acontecendo em de seu quarto de santo. Foi quando ela lembrou que tudo isso começara com a doença do alazão, aquele cavalo era um cerne, nunca adoecera, mas, ultimamente tinha se pego de uma tristeza infinda, perdera o apetite e não levantava a cabeça nem para comer.

A negra desconfiada abriu os olhos. Opa! Epa! Alguma coisa ta errada aqui. Deixou passar uma semana na espera que as coisas melhorassem, que nada! piorou. Bem, aqui deu. Chegou a hora do basta. Largou o que estava fazendo e foi em busca do Oráculo dos Orixás (os búzios).

É aqui que eu vou saber com quem eu estou lidando. Ora bolas...O Alazão numa tristeza de dar dó, meus fregueses desaparecendo, meus cabritos morrendo, meu pé de arruda secando, meu nego não consegue manter uma ereção por mais de duas horas, epa! La puxa o que se passa? Bem, agora saberemos.

Foi abrir os búzios e o Bará Lanã saltou de pronto. Estou aqui o que é qui há? Era uma pergunta e não precisou esperar pela resposta, o Bará trazia na ponta da língua: “abre o olho estão te tocando”. A negra enlouqueceu. Então é isso? Sim e o pior: Estava sendo tocada por pessoa amiga, amiga? Amigo são meus dentes e as vezes mordem.

Mas, não vamos chorar o leite derramado, bem que eu estava precisando de um retorço, isso de ficar parada já estava me dando nos nervos, eu sou que nem xarope precisa ser agitado antes de tomar. Se preparem aqui vou eu.

Mas antes de tomar qualquer decisão convocou sua mãe Oyá Dirãn e seu pai Xapanã Sapata do Buraco, trazendo a frente o inseparável amigo Exu Lanã Soborucu, este já saiu na frente tinha pressa de chegar. A negra deu uma volta na casa e dirigiu-se ao fundo do pátio e abriu a casinha do Legba, este não poderia sob hipótese nenhuma ficar fora desta contenda, coisas básicas de sua função entrar para destruir, se é que encontraria alguma coisa em pé depois da passagem de Oyá Dirãn.

Naquela noite voltou a mesa de búzios precisava tirar algumas duvidas que estavam latejando em sua cabeça. Afinal, o porque este povo desgraçado tinha lhe mandando aquele feitiço? Estes infelizes comem em minha mesa, são oriundos a mesma bacia, tinham a mesma mãe de santo, tinham sido feitas a mesma época. Como podem estás criaturas terem em mente tanta maldade? Quando o assunto era de irmãos de religião? Esta era a pergunta que lhe remoia a mente e aferventava os miolos.

Abriu os búzios e aguardou a resposta. Às conchinhas sagradas caíram e formaram o circulo do coração de mãe, era Oxum Demum trazendo a resposta.Ora yeieuo minha doce mãe minha bela iabá foi à saudação que saiu pela boca vinda do coração. E a resposta estava ali. “Minha filha... Minha filha tu tens que saber perdoar teus irmãos, eles estão sendo usados por uma mente doentia para agir desta maneira”. E fim de papo. Mas quem? Esta resposta ela não teve de pronto, teria que procurar. Vou saber como? Também não soube.

Mas quem tem Xangô em seu Orumalé tem quem saiba e a resposta tarda, mas, não falha. Há, há, há, há uma bela risada de sua mãe foi o que ouviu, como a debochar de tanta inocência sendo exposta pela filha. Mãe Yansãn sabia que sua filha era uma cobra criada, e que no fundo estava adorando aquela função.

Na segunda queda Xangô Aganju trás a definição e a receita de como dar uma volta em seus desafetos. “Minha filha compre 4 galinhas preta e ofertes a Oxalá de Orumilaia, depois solte-as que na encruzilhada elas saberão o caminho e encontraram quem procuras. Quando elas voltarem sacrifique ao Orixá Oxalá”.

Na tarde do dia seguinte pegou a carroça e desceu o morro tinha pressa de comprar as tais galinhas, o dia terminando, a noite chegando era o entardecer do verão de 1948, ano bom de um fevereiro ainda melhor, quando nascem os especiais, os poetas e os Babalorixás.

O compadre Marcelino se surpreendeu com a compra de 4 galinhas, pretas retintas de pés pretos, as galinhas gordas e da colônia tinham preço especiais eram aves que no cerimonial do batuque só eram usadas e sacrificadas quando da cerimônia de entrega de búzios. Vendeu, cobrou, ensacou e calou, não era louco de perguntar qual finalidade daquela compra.

A negra Etelvina botou o saco nas costas levou até a carroça e depositou na parte traseira da carroça, levantou o vestido, alçou a perna e num salto estava sentada na boleia. Foi um estalar de beiço e os cavalos se puseram em marcha de volta ao morro.

Desceu da carroça deu de mão no saco e foi em busca de uma gaiola bem grande para acomodar as aves. Bem, agora era aguardar a noite chegar para no breu cometer os demando dos orixás. E tchau e benção sejam feitas a vontade dos deuses, manda quem pode obedece quem precisa.

Deixou a gaiola dentro da carroça, e esta em posição de largada de frente para a rua, estava pronta para partir na hora aprazada, entrou na casa e buscou se alimentar, pois, saco vazio não para em pé.

Quando chegou a hora foi até o quarto de santo e saudou todos os orixás e prendeu o grito, reparrei bela Oiá, aqui vou eu. E saiu porta afora tinha pressa de chegar, chegou e foi derramando galinha naquele cruzeiro feita louca e aquilo que era um desmando, virou uma escuridão dentro da noite, ali a testemunhar apenas a lua que feito uma lanterna iluminava a encruzilhada.

Voltou para casa tomou um banho e voltou para a varanda e sentou em uma cadeira preguiçosa, não tinha sono e a cabeça estava longe na busca de resposta e não encontrando tinha a alma a desvairar dentro dos pensamentos que a deixavam confusa.

Mas, afinal qual o objetivo de me atingir se eu estou quieta no meu canto, não faço mal a ninguém, não me meto onde não sou chamada, afinal o porque desta demanda? E quanto mais pergunta menos resposta e mais confusão. Vou dormir amanhã saberei a respostas.

Na manhã seguinte acordou de sobressalto com uma gritaria nas cercanias da casa, levou um susto e saltou da cama e foi para a janela precisava se acercar do acontecido e o motivo de toda aquela gritaria. Nem lavou a cara e saiu para a rua e o que viu? A vila em polvorosa era gente e mais gente a correr trás das galinhas. Homens, mulheres, crianças e cachorros em louca disparada a cata das penosas, estás voavam sobre cerca, casas e árvores. Meu Deus isso é uma loucura estes orixás devem estar loucos com esta proposta, a disputa por estas galinhas ainda vai acabar em morte. O pior era não poder dizer que ela era dona das aves. Calou e voltou para dentro da morada. Precisava articular um plano e refazer as ordens de Xangô Aganju, ele dissera: “Solta as galinhas que elas mostraram teus inimigos”. Pensava que as galinhas iriam se por nas casas dos desafetos, agora via que elas iam mesmo era para a panela.

E o dia todo foi àquela correria o morro faminto não desistiria tão fácil de um bom almoço, imagina uma galinha preta ao molho pardo, coisa dos Deuses. E a tarde continuou e a noite chegou e de resultado nenhum, a não ser alguns meninos com algumas escoriações. Estes orixás devem estar loucos ou querem dar boas risadas destas palhaçadas, pois, o pessoal passou o dia rindo desta caçada

E agora fazer o que?

Na manhã seguinte saiu a caminhar pela vila precisava se interar dos fatos e para a surpresa geral todas as galinhas sobreviveram ao ataque esfomeado do povo da vila. Contabilizou e viu que cada uma estava em casas diferentes, sim as casas eram de seus irmãos de religião. Teve galinha que caminhou vinte quadra e atravessou ruas, becos e vielas para chegar em seu destino. Mas chegou. Meu Deus e agora o que faço? Debulho feitiço nesta corja toda? Será que eu estou certa? Este julgamento não cabe a mim, mas a meus orixás, o que fazer?

Voltou para casa mais confusa que sairá, não entendia a resposta colocada diante de seus olhos, precisava de tempo para refletir.

E foi o que fez.

Terminada a chamada abriu a mão e os búzios correram pela mesa dando forma a configurações estranhas, coisa nunca dantes acontecida. Abriu a mão espalmada sobre a mesa de búzios e foi analisando a posição de cada conchinha e a decodificação da percepção de sua mãe Yansãn explodiu em sua mente com a revelação de todos os fatos, causa e efeito, tudo ali de uma simplicidade que os mais antigos chamavam de magia. Claro como a luz do sol, cristalina como a água que verte da cacimba. Sim a verdade é que tudo era fruto de seu irmão de Xapanã que por inveja, reunira aquela tropa de choque para demandar.

Mas não tivera coragem de pegar de frente e sozinho, reuniu um bando e resolvera vir pelo atalho, esquecido que a negra rolou mundo e a vida havia lhe ensinara todos. Aquele infeliz arrotava fundamento, jurava que sabia e tinha pretensões maiores à de mandar no morro. Pobrezinho. Há se soubesse. Mas agora amarrou seu burro vai ter que aprender. Vou dar uma lição nestes calhordas, para o povo finalmente saber com quem estão lidando? Reparrei bela Oiá chegou tua hora. E vamos enfrente. E fui.

Agora era contabilizar os estrago e listar os desafetos.

Coisa que não precisou, pois, na manhã seguinte teve ela a felicidade de receber em sua porta cada um dos ditos inimigos, trazendo embaixo do braço as tais galinhas pretas. Cada qual sabendo que ela era a dona das penosas haviam capturado e trazida para a verdadeira dona, ela a Etelvina de Yansãn Oiá Dirãn. Há, há, há, há.

Deu de mão num papel, um toco de lápis, fez a ponta, molhou entre os lábios e foi anotando nome e sobrenome acrescido da digina de cada orixá de cabeça dos irmãos.

Como posso lidar com gente que se tem por esperta e vem pagar este mico aqui na minha porta.

A tarde saiu às compras precisava de alguns ingredientes para completar o material do feitiço, este em sua mente montado e arquitetado de acordo com as ordens de seu orixá, tem quem não goste, mas tem quem adore, neste caso eu. Há, há, há, há.

Aqui a cobra vai fumar e como? Aguarde e quem viver verá.

De volta as casas preparou-se para ir a cozinha na preparação da feitiçaria. Mas como de volta as casas Deodé? Não seria de volta a casa já que ela tinha uma.

Não. De volta as casa é o certo já que a sua, a do Lodê e a do Legba estavam com as portas escancaradas a espera das oferendas.

Tudo preparado foi em busca das galinhas precisava sacrifica-las.

Sim, mas, cadê as galinhas? Tinham desaparecido.

Por meu Pai Bará Lodê! Mas aonde foram parar estas infelizes?

E sabe Deus onde?

Lembrou-se o que fora o escândalo e das correrias da gurizada na captura das aves, será que vou ter que passar por tudo isso?

Saiu a cata das bichanas. E deu meia-noite e deu meio-dia e nada, nadica de nada dos bichos aparecerem. Será que estes orixás enlouqueceram? Onde já se viu tal despautério. Voltou ao quarto de santo isso já era demais. Precisava se orientar com os orixás, para isso nada melhor que uma mão de búzios. E foi o que fez.

Comentários finais sobre o concurso realizado no ano de 2006:

(Concurso Literário- Premio Amuleto de Xangô)

Bem, aqui está a história agora é com vocês terminarem.

Norma do concurso.

Sim, norma pois, só tem uma.

A melhor história vai ser publicada e ganhar de presente um amuleto de Xangô.

Esta é uma maneira de fazer vocês lerem, porque a batuqueirada independente de em sua maioria não saberem ler, metade lê e não sabem o que leu.

Para os poucos obstinados minhas felicitações e a premiação.

Corram que atrás vem gente.

Aproveitem, isso é mais moleza que bóia dada.

O primeiro que chegar vence. Não tem segundo turno.

João Carlos de Odé - O contador de Histórias do Batuque.