Carta de Deodé a Mestre Norton

Ao mestre com carinho.

Quero escrever sobre o Norton Correa, mas sempre fujo por medo de ser incompreendido, mas para aqueles que me conhecem sabem que não temo o debate, mas, sim a ignorância a agressão dos que pensam ao contrário dos meus posicionamentos.

Para isso quero relatar que quando me deparei com o livro, eu babei, li e reli e continuo lendo. O texto é limpo, em cada palavra, em cada experiência ali estão os olhos do Norton captando tudo sobre o Batuque na época.

As casas por onde ele passou, as pessoas com as quais ele conviveu, tudo faz parte de nossa história. E parte do livro tem a participação de minha bacia, meu bisavô, tios, tias, ali estão participando contribuindo para o resgate do Batuque. Os relatos do Norton, ontem eram o nosso passado cultural Africanista, hoje é o questionamento do futuro, e amanhã será o futuro de nossa religião.

O Norton sempre foi um grande defensor de nossa religião, tenho aqui em casa diversas crônicas dele publicadas na Zero Hora. Interessante é que o Norton sempre esteve envolvido em polêmicas as mais diversas.

Mas, o que me faz escrever este texto, é a certeza absoluta de que o Batuque tem que ser estudado em toda a sua visão histórica, cultural, cientifica, religiosa, social, ritualística, etimológica, política, psicológica, e como o Norton fez antropológica.

O nosso batuque não tem uma bibliografia abalizada, tudo que nós foi legado, foi passado oralmente, ali ao pé da orelha. O que existe por ai são em sua maioria “O ouvi dizer”. A obra do Norton é o que existe da mais fidedigno relato de como eram nossas casas, nossos costumes e pasmem os senhores: não existe outro livro falando do Batuque como o do Norton, ele é único.

Esta era a sua proposta e ela foi executa com primor, digna dos elogios dos mais destacados Babalorixás do Batuque. Até porque é Antropologia que trata das características sócio-culturais da humanidade (costumes, crenças, comportamento, organização social) e que se relaciona, portanto, com várias outras ciências, tais como etnologia, arqueologia, lingüística, sociologia, economia, história, geografia humana.

Já me deparei com inúmeras criticas sobre o livro “Batuque no Rio Grande do Sul”, esta obra do Norton, mas sempre me sai bem.

Por que? E aqui vai uma afirmativa metade dos adeptos de nossa religião não sabem ler, e a outra metade lê e não sabe o que está lendo. Pode?

Quando decidi escrever sobre o Batuque sem pretensões literárias, pois, não tenho curso nenhum, não sou escritor, sou um contador das Histórias do Batuque.

E meu orgulho maior, foi o de contrariar o filósofo René Descartes.

Quando disse: “Penso logo existo”, meu livro tem a pretensão de dizer: “Sinto logo êxito”.Os que leram o livro com o coração foram mais feliz do que eu que escrevi.

E para não dizer que não falei em flores, quero relatar que o Livro “Yemanjá Quer Falar Contigo”, foi processado 8 vezes. Agora advinha por quem? Sim, quem se atreveria a procura a justiça comum para processar um contador de histórias do Batuque: Quem? Quem?Quem? Hora quem, os batuqueiros, que não tinham Orixá Xangô na prateleira de seu Quarto de santo (Orixá da Justiça). E assim foi e assim vai continuar sendo. Urge que procuremos as salas de aula, por que se um livro é ameaçado de ser queimado em praça publica, o que será o futuro de nossos filhos.

E nunca querendo comparar, o livro do Norton foi escrito com a visão de fora para dentro do batuque e eu tenho a pretensão de escrever de dentro para fora do Batuque.

O Norton é um antropólogo, eu sou um Babalorixá.

O Próprio Norton ao defender sua tese, (este livro é uma tese de mestrado), procurou acercar-se dos que realmente conheciam o Batuque foram os Babalorixás que deram aval a sua obra.

Quando quero compará-lo com tudo que li do Batuque, tomo um exemplo bem simplista: Você liga a televisão e lá esta uma imagem de um Sabia alimentando seus filhotes. Agora você vai a uma floresta e vê a mesma situação. Em que situação você evidenciou mais? Outro exemplo: Uma pessoa vê tudo que se passa dentro das obrigações do Batuque (feitura, buri, entrega de búzios, fala, nascimento de um Orixá), mas ele não é de religião, vê tudo pela ótica da razão, ele é testemunha ocular do fato.

Outra pessoa esta lá como filho da casa e tudo que vê será relatado pela emoção, pela fé e amor e devoção ao Orixá, seu relato é a decodificação da percepção do universo imantado do ritual e cerimonial dos deuses. Agora a pergunta final; Qual relato será o mais autêntico e trará mais riqueza a sua fé? Para você que é de religião.

Diga me qual?

E assim eu pude compreender e respeitar tudo que li na obra do Norton, e digo mais, muito aprendi e compreendi nas entre linhas sublimares, do que na visão do Norton. Encerrando o Norton fala pela razão e eu decodifico cada relato pela visão da fé. E isto minha gente ninguém pode desmerecer a beleza da obra. Pena que para alguns poucos, por sinal muito pouco.

João Carlos de Odé

Babalorixá

Resposta da Carta Norton Corrêa a Deodé

São Luís, MA, 26 de setembro de 2006.

Meu querido amigo João Carlos do Odé (posso tomar a liberdade de te chamar de amigo, embora penso que não te conheça pessoalmente?):

Antes de mais nada preciso dizer que fiquei muito sensibilizado e agradecido pelas palavras que colocaste em tua bela carta: pelo título que lhe deste – “Ao Mestre com Carinho” - os elogios e admiração que manifestas pelo meu trabalho (embora todos imerecidos!), além de um carinho sincero e perceptível que se espraia pelo texto, corroborando a sinceridade da expressão do título. Muito obrigado, João Carlos! E muito obrigado ao meu amigo Rodrigo do Xapanã, que fez com que a mensagem me chegasse às mãos.

Tanto o título, como algumas coisas que dizes no texto, me sensibilizaram também porque fizeram eco com certas histórias minhas momentos que vivenciei. Desculpa, por que farão a carta ficar mais comprida, mas acho que vale a pena contá-las. Comecemos pelo título da tua carta.

Em 1972, depois de ter ingressado no curso de Ciências Sociais, na UFRGS, em Porto Alegre, resolvi estudar um ano em Salvador, na UFBA, para cursar Iorubá e disciplinas sobre a história africana e antropologia religiosa desta matriz (o curso de Iorubá, para meu azar, fora cancelado naquele ano). Em compensação, tive a felicidade e a honra de ser aluno do reconhecidamente maior expoente entre os estudiosos das religiões afro-brasileiras, o Prof. Vivaldo da Costa Lima. É também o maior cérebro que conheci até hoje (digita o nome dele na Internet e se possível, compra “Família de Santo...”, que foi reeditado há algum).

“Olha, a pesquisa que este moço faz é muito boa para a Religião, por isto é que ele pode vir aqui o quanto quiser e pesquisar o quanto quiser”. Só mais tarde, quando conversei com o Pernambuco é que entendi porque ela deixara aquilo bem claro.

Na sua imensa sabedoria, inteligência e percepção, previram algo que eu jamais imaginara, na época, e que cada vez mais me surpreende e me faz feliz, hoje: que aquilo que eu observava e anotava iria, muitos anos depois, de algum modo ser útil para a comunidade do Batuque, justamente pelos descendentes de santo daqueles que tão gentilmente me acolhiam e desinteressadamente me forneciam dados. Nunca imaginei, também, que um dia fosse ser alvo de palavras tão agradáveis e sinceras de alguém como o amigo, que tem raízes e, percebe-se, uma longa trajetória na Religião. Por isto que quando dizes que leste, o meu livro, releste e babaste, respondo com um muito, muito obrigado, porque me fizeste babar, também – afinal, sou de carne e osso, como todos, não é. Mas não posso (ou não podemos?) deixar de muito agradecer àqueles cujos ensinamentos e visão ampla do futuro foram indispensáveis para que isto tudo o que está acontecendo, hoje, esteja acontecendo – afinal, estamos falando é sobre a herança que de alguma forma deixaram. (Só te peço um favor: não me pergunta que relação poderia haver entre um e outro fato, receber, no passado, ampla liberdade de pesquisar e a repercussão, hoje, do que escrevi. Porque, confesso, com toda a minha antropologia não tenho respostas para isto).

Vamos à tua carta. Sou mestre em antropologia, está certo, mas, como viste, ela não dá resposta para tudo, ninguém tem, sozinho, a verdade, todo mundo tem um pouco dela. Quem, como tu (e tantos outros sacerdotes, que se aprofundam na Religião, guardando, desenvolvendo e aplicando a outrem a sabedoria que recebeu dos ancestrais) também és um Mestre, como pode ser um antropólogo, cada um na sua área. E mais, se cheguei a mestre é porque bebi muito destes mestres.

O antropólogo precisa, antes de tudo, tentar entender como o pesquisado vê o mundo, como ele pensa. E a partir daí é que vai tirar suas conclusões. Por isto é que ele procura sair de seu próprio universo cultural e ir para o do pesquisado. Claro que ele nunca vai conseguir se meter totalmente na pele deste para captar tais coisas, porque não nasceu e cresceu, como ele, vivenciando (sentindo, como bem colocas), ter a visão de dentro, só podendo ter o olhar de fora, externo. Entretanto, como estuda, treina o olhar, percebe, por sua vez, certas coisas que o pesquisado não percebe. Todos nós agimos da forma que pensamos ser natural, digamos, pois o nosso grupo faz assim.

Mas, o que nos pode parecer natural pode não ser natural, e sim algo específico da cultura do grupo – e é isto que o antropólogo pode perceber. Se conseguir captar os sentimentos, ora viva, está num rumo de aproximação com o pesquisado, o que é o ideal. Porque, repetindo, cada um tem apenas uma parte da verdade sobre a cultura em causa. Por isto é muito importante que o pesquisado escreva, porque ele tem o olhar de dentro. No caso do teu livro sobre a Iemanjá, acho que é isto mesmo que os religiosos têm de fazer (aliás, muitos vêm fazendo), expressar diretamente o que sentem, como percebem as coisas à sua volta etc. Críticas? Elas são coisas comuns não apenas na comunidade batuqueira, mas em todas, faz parte do convívio humano. Como dizia a minha sábia avó materna, ninguém atira pedra em fruta podre, de modo que tens de fazer é isto mesmo. Se todos os antigos tivessem feito isto, certamente eu não estaria te escrevendo esta carta, porque o meu livro já de muito teria sido esquecido. Para nós, antropólogos que, como disse, procuramos entender a cultura alheia, trabalhos feitos por pessoas de dentro da cultura são subsídios inestimáveis.

Sei lá por que cargas d’água não saiu, embora o meu argumento principal tenha coincidentemente saído em uma coluna do jornal, tempos mais tarde... Acho até que seria uma boa transcrevê-lo, para que se torna público e forneça argumentos para o pessoal, caso a coisa se repita).

João paro por aqui, agradecendo novamente tuas belas palavras sobre o meu trabalho. É possível que eu vá em breve a Porto Alegre (estou torcendo por isto) e então vou ter o prazer de te conhecer ao vivo. Que o teu pai Odé sempre de abençoe, que te defenda, com suas flechas, das coisas ruins da vida e te dê um assagéu espiritual perene, com muita saúde, felicidade, uouô no bolso e todas as realizações que desejas.

Do seu novo amigo Norton.