Dez Anos de Histórias


Dez Anos de Histórias

Gostaríamos de começar essa nova versão estendida da história original da “Carta ao Mestre” de forma diferente com uma colocação do professor Doutor, e nosso mestre, Norton Corrêa, recebida neste último dia 29 de março de 2022: “Ouvindo agora esta história (Carta ao Mestre) vocês me fizeram relembrar os momentos inesquecíveis em que o conheci e convivi com ele. Era um cara fantástico, aonde fosse todos gostavam muito dele. Levei-o num batuque da Santinha do Ogum e ele conquistou a goa todinha. Gostei muito dos livros dele, um excelente escritor, tão bom que passei a chamá-lo de Jorge Amado dos Pampas, pela temática abordada e criatividade."


Assim, agradecemos o carinho do Professor Norton e também por de nos passar as outras cartas para que pudéssemos compilar o diálogo inicial completo nessa nova história que traz o registro do início da amizade entre os nossos dois mestres.



Primeira carta de Deodé para Norton


Ao Mestre com Carinho


Quero escrever sobre o Norton Corrêa, mas sempre fujo da raia por medo de ser incompreendido. Mas, para aqueles que me conhecem sabe que não temo o debate, mas, sim a ignorância a agressão dos que pensam ao contrário dos meus posicionamentos.


Para isso quero relatar que quando me deparei com o livro, eu babei, li e reli e continuo lendo. O texto é limpo, em cada palavra, em cada experiência ali estão os olhos do Norton captando tudo sobre o Batuque na época.


As casas por onde ele passou, as pessoas com as quais ele conviveu, tudo faz parte de nossa história. E parte do livro tem a participação de minha bacia, meu bisavô, tios, tias, ali estão participando contribuindo para o resgate do Batuque. Os relatos do Norton, ontem eram o nosso passado cultural Africanista, hoje é o questionamento do futuro, e amanhã será o futuro de nossa religião.


O Norton sempre foi um grande defensor de nossa religião, tenho aqui em casa diversas crônicas dele publicadas na Zero Hora. Interessante é que o Norton sempre esteve envolvido em polêmicas das mais diversas.


Mas, o que me faz escrever este texto, é a certeza absoluta de que o Batuque tem que ser estudado em toda a sua visão histórica, cultural, científica, religiosa, social, ritualística, etimológica, política, psicológica, e como o Norton fez antropológica.


O nosso batuque não tem uma bibliografia abalizada, tudo que nos foi legado, foi passado oralmente, ali ao pé da orelha. O que existe por ai são em sua maioria “O ouvi dizer”. A obra do Norton é o que existe do mais fidedigno relato de como eram nossas casas, nossos costumes e pasmem os senhores: não existe outro livro falando do Batuque como o do Norton, ele é único.


Esta era a sua proposta e ela foi executada com primor, digna dos elogios dos mais destacados Babalorixás do Batuque. Até porque é a Antropologia que trata das características sócio-culturais da humanidade (costumes, crenças, comportamento, organização social) e que se relaciona, portanto, com várias outras ciências, tais como etnologia, arqueologia, lingüística, sociologia, economia, história, geografia humana.


Já me deparei com inúmeras críticas sobre o livro “Batuque no Rio Grande do Sul”, esta obra do Norton, mas sempre me saí bem.


Por quê? E aqui vai uma afirmativa: metade dos adeptos de nossa religião não sabem ler, e a outra metade lê e não sabe o que está lendo. Pode?


Quando decidi escrever sobre o Batuque foi sem pretensões literárias, pois, não tenho curso nenhum, não sou escritor, sou um contador das Histórias do Batuque.


E meu orgulho maior, foi o de contrariar o filósofo René Descartes quando disse: “Penso logo existo”, meu livro tem a pretensão de dizer: “Sinto logo existo”.


Os que leram o livro com o coração foram mais felizes do que eu que escrevi.


E para não dizer que não falei em flores, quero relatar que o Livro “Yemanjá Quer Falar Contigo”, foi processado 8 vezes. Agora advinha por quem? Sim, quem se atreveria a procurar a justiça para processar um contador de histórias do Batuque: Quem? Quem? Quem? Hora quem, os batuqueiros, que não tinham Orixá Xangô na prateleira de seu Quarto de santo (Orixá da Justiça). E assim foi e assim vai continuar sendo. Urge que procuremos as salas de aula, por que se um livro é ameaçado de ser queimado em praça pública, o que será o futuro de nossos filhos.


E nunca querendo comparar, o livro do Norton foi escrito com a visão de fora para dentro do batuque e eu tenho a intensão de escrever de dentro para fora do Batuque.


O Norton é um antropólogo, eu sou um Babalorixá.


O Próprio Norton ao defender sua tese, (este livro é baseado em sua dissertação de mestrado), procurou se acercar dos que realmente conheciam o Batuque. Assim, foram os Babalorixás que deram aval a sua obra.


Quando quero compará-lo com tudo que li do Batuque, tomo um exemplo bem simplista: Você liga a televisão e lá está uma imagem de um Sabiá alimentando seus filhotes. Agora você vai a uma floresta e vê a mesma situação. Em que situação você evidenciou mais? Outro exemplo: Uma pessoa vê tudo que se passa dentro das obrigações do Batuque (feitura, buri, entrega de búzios, fala, nascimento de um Orixá), mas ele não é de religião, vê tudo pela ótica da razão, ele é testemunha ocular do fato.


Outra pessoa está lá como filho da casa e tudo que vê será relatado pela emoção, pela fé e amor e devoção ao Orixá, seu relato é a decodificação da percepção do universo imantado do ritual e cerimonial dos deuses. Agora a pergunta final: Qual relato será o mais autêntico e trará mais riqueza a sua fé? Para você que é de religião. Diga me qual?


E assim eu pude compreender e respeitar tudo que li na obra do Norton, e digo mais, muito aprendi e compreendi nas entre linhas subliminares, do que na visão do Norton. Encerrando o Norton fala pela razão e eu decodifico cada relato pela visão da fé. E isto minha gente significa que ninguém pode desmerecer a beleza da sua obra. Pena este fato ser verdade para alguns poucos, por sinal muito poucos.


João Carlos de Odé


Babalorixá


Final da primeira carta de Deodé a Norton





Segue parte do diálogo de Norton com Pai Rodrigo de Xapanã que estabeleceu o contato entre os dois mestres.

Rodrigo,



vai a resposta da carta do João Carlos de Odé, que me sensibilizou e me levou a viajar para o passado. (...) Continuo, como te disse, achando esta coisa muito surpreendente, este interesse da comunidade pelo meu livro. (...) Ainda não me convenci muito disto, confesso, mas...


Um grande abraço


Norton




Segunda carta com a resposta do Norton Corrêa a Deodé


São Luís do Maranhão, 26 de setembro de 2006.


Meu querido amigo João Carlos de Odé (posso tomar a liberdade de te chamar de amigo, embora penso que não te conheça pessoalmente?):


Antes de mais nada preciso dizer que fiquei muito sensibilizado e agradecido pelas palavras que colocaste em tua bela carta: pelo título que lhe deste – “Ao Mestre com Carinho” - os elogios e admiração que manifestas pelo meu trabalho (embora todos imerecidos!), além de um carinho sincero e perceptível que se espraia pelo texto, corroborando a sinceridade da expressão do título. Muito obrigado, João Carlos! E muito obrigado ao meu amigo Rodrigo do Xapanã, que fez com que a mensagem me chegasse às mãos.


Tanto o título, como algumas coisas que dizes no texto, me sensibilizaram também porque fizeram eco com certas histórias minhas, momentos que vivenciei. Desculpa, por que farão a carta ficar mais comprida, mas acho que vale a pena contá-las. Comecemos pelo título da tua carta.


Em 1972, depois de ter ingressado no curso de Ciências Sociais, na UFRGS, em Porto Alegre, resolvi estudar um ano em Salvador, na UFBA, para cursar Iorubá e disciplinas sobre a história africana e antropologia religiosa desta matriz (o curso de Iorubá, para meu azar, fora cancelado naquele ano).


Em compensação, tive a felicidade e a honra de ser aluno do reconhecidamente maior expoente entre os estudiosos das religiões afro-brasileiras, o Prof. Vivaldo da Costa Lima. É também o maior cérebro que conheci até hoje (digita o nome dele na Internet e se possível, compra “Família de Santo...”, que foi reeditado há algum tempo). Dizes, com razão, que sempre estou envolvido em polêmicas, e foi exatamente isto o que acontecia em aula, entre nós: ele me provocava muito e eu não me fazia de rogado, tentando responder à altura. Disparado, era o aluno a quem ele mais provocava e com quem mais discutia em aula, não raro acaloradamente. Pensava, claro, que me detestava. Ao comentar isto com uma colega que o conhecia de muito tempo, ela me deu a chave: ele te provoca porque te admira! Claro que não acreditei, pois de forma alguma achava ser merecedor da admiração de alguém como o nosso professor, dono de um conhecimento imenso e profundo não só do tema que me interessava, mas dos mais diversos assuntos da grande área das ciências humanas. Eu, sim, claro, admirava muito sua inteligência e conhecimento, além de lhe ter grande estima. O fato de ter sido seu aluno representou um enorme e decisivo impulso em meus estudos de religião afro, além de constituir um antes e um depois em minha carreira de antropólogo. Anos depois, numa rodinha de amigos comuns (ele junto), num congresso, brinquei, dizendo em voz alta: olha pessoal, eu fui aluno dele (Vivaldo) e ele passava o tempo todo brigando comigo e me desancando. A resposta foi rápida e surpreendente: eu brigava contigo porque gostava muito de ti, como aluno, e porque tens umas idéias próprias e originais. Confesso que quase caí duro, porque descobri que a estima era mútua, minha antiga colega tinha razão. Até hoje nossa amizade é muito grande, o que para mim é uma grande satisfação e honra. Tempos atrás me telefonam de Salvador pedindo um artigo para uma coletânea em homenagem aos (hoje) oitenta anos dele. A primeira coisa que me ocorreu, antes de mais nada e de imediato, foi o título. Se adivinhares ganhas um doce: Ao Mestre com Carinho. Convenhamos, não é para eu ficar emocionado?


Segunda história. A primeira vez em que pisei num templo afro-brasileiro foi na festa maior, no dia 7 de setembro de 1969, na falecida Mãe Ester (chamo de Mãe por respeito – assim como se diz padre Fulano, mesmo sem ser católico – embora nunca tenha sido filho de santo de ninguém. Mas sempre, por ela e por outras e outros, fui tratado como filho, com todos aprendendo muito, inclusive para a vida). Levado por meu professor, Carlos Galvão Krebs, junto com outros alunos, logo comecei a tirar fotos, gravar e fazer anotações. Tornei-me assíduo observador, na casa, sendo extremamente bem recebido e tendo toda a liberdade para perguntar, fotografar e pesquisar o que quisesse – ao ponto, inclusive, de a Mãe Ester sempre deixar um espaço mínimo para que eu pudesse ficar em pé, em posição estratégica, em meio às obrigações, no quarto de santo abarrotado, nos serões, para que eu pudesse fotografar o que ali ocorria. Numa grande demonstração de confiança, igualmente, assim como outros chefes, permitia que eu fotografasse os orixás no mundo. Eles sabiam que eu tinha conhecimento de que jamais tais fotos poderiam ser vistas pelos cavalos daqueles santos, o que sempre cumpri rigorosamente.


Um dia, voltando a Porto Alegre, fui visitar o Pernambuco (vinculado à casa), de quem fui amigo, pois estava muito doente – faleceu algum tempo depois. Para minha surpresa, me disse algo que nunca me passara pela cabeça. Relatou que alguém da casa, em determinada ocasião, questionara o fato de eu ter, ali, uma liberdade que este alguém achava demasiada. Numa festa em que eu estava ausente, a Iemanjá da Mãe Ester baixou, disse que a filha dela (Ester) jogara os búzios sobre o problema e ela, Iemanjá, respondera que eu deveria ter, sim, essa liberdade, porque isto iria muito ajudar à religião. O que os demais santos presentes achavam? Sem exceção, todos concordaram com ela. Tempos depois, num almoço de domingo do qual eu participava, a mesa cheia de gente, ela, sem mais nem menos, disse algo assim em voz bem alta, para todos ouvirem: “Olha, a pesquisa que este moço faz é muito boa para a religião, por isto é que ele pode vir aqui o quanto quiser e pesquisar o quanto quiser”. Só mais tarde, quando conversei com o Pernambuco é que entendi porque ela deixara aquilo bem claro. Na sua imensa sabedoria, inteligência e percepção, previra algo que eu jamais imaginara, na época, e que cada vez mais me surpreende e me faz feliz, hoje: que aquilo que eu observava e anotava iria, muitos anos depois, de algum modo ser útil para a comunidade do batuque, justamente pelos descendentes de santo daqueles que tão gentilmente me acolhiam e desinteressadamente me forneciam dados.


Nunca imaginei, também, que um dia fosse ser alvo de palavras tão agradáveis e sinceras de alguém como o amigo, que tem raízes e, percebe-se, uma longa trajetória na religião. Por isto que quando dizes que leste, o meu livro, releste e babaste, respondo com um muito, muito obrigado, porque me fizeste babar, também – afinal, sou de carne e osso, como todos, não é?. Mas não posso (ou não podemos?) deixar de muito agradecer àqueles cujos ensinamentos e visão ampla do futuro foram indispensáveis para que isto tudo o que está acontecendo, hoje, esteja acontecendo – afinal, estamos falando é sobre a herança que de alguma forma deixaram. (Só te peço um favor: não me pergunta que relação poderia haver entre um e outro fato, receber, no passado, ampla liberdade de pesquisar e a repercussão, hoje, do que escrevi. Porque, confesso, com toda a minha antropologia não tenho respostas para isto).


Vamos à tua carta. Sou mestre em antropologia, está certo, mas, como viste, ela não dá resposta para tudo, ninguém tem, sozinho, a verdade, todo mundo tem um pouco dela. Quem, como tu (e tantos outros sacerdotes, que se aprofundam na Religião, guardando, desenvolvendo e aplicando a outrem a sabedoria que recebeu dos ancestrais) também é um Mestre, como pode ser um antropólogo, cada um na sua área. E mais, se cheguei a mestre é porque bebi muito destes mestres.


O antropólogo precisa, antes de tudo, tentar entender como o pesquisado vê o mundo, como ele pensa. E a partir daí é que vai tirar suas conclusões. Por isto é que ele procura sair de seu próprio universo cultural e ir para o do pesquisado. Claro que ele nunca vai conseguir se meter totalmente na pele deste para captar tais coisas, porque não nasceu e cresceu, como ele, vivenciando (sentindo, como bem colocas), ter a visão de dentro, só podendo ter o olhar de fora, externo. Entretanto, como estuda, treina o olhar, percebe, por sua vez, certas coisas que o pesquisado não percebe. Todos nós agimos da forma que pensamos ser natural, digamos, pois o nosso grupo faz assim. Mas, o que nos pode parecer natural pode não ser natural, e sim algo específico da cultura do grupo – e é isto que o antropólogo pode perceber. Se conseguir captar os sentimentos, ora viva, está num rumo de aproximação com o pesquisado, o que é o ideal. Porque, repetindo, cada um tem apenas uma parte da verdade sobre a cultura em causa. Por isto é muito importante que o pesquisado escreva, porque ele tem o olhar de dentro. No caso do teu livro sobre a Iemanjá, acho que é isto mesmo que os religiosos têm de fazer (aliás, muitos vêm fazendo), expressar diretamente o que sentem, como percebem as coisas à sua volta etc. Críticas? Elas são coisas comuns não apenas na comunidade batuqueira, mas em todas, faz parte do convívio humano. Como dizia a minha sábia avó materna, ninguém atira pedra em fruta podre, de modo que tens de fazer é isto mesmo. Se todos os antigos tivessem feito isto, certamente eu não estaria te escrevendo esta carta, porque o meu livro já de muito teria sido esquecido. Para nós, antropólogos que, como disse, procuramos entender a cultura alheia, trabalhos feitos por pessoas de dentro da cultura são subsídios inestimáveis. Portanto, continua escrevendo sem medo, porque sempre expressarás uma parte da verdade, e de parte em parte vamos, coletivamente, nos aproximando dela. Por estas e outras declaro logo, aqui, que estou muito interessado no teu livro sobre a Iemanjá – “Yemanjá Quer Falar Contigo”. Certamente, como diz o título, aprenderei coisas que ela, através de ti, está me falando. Como posso adquiri-lo?


Te consideras apenas um contador de histórias? Pois respondo com outra: um dia, num grande congresso, fiz uma palestra sobre o Batuque, com interpretações antropológicas e tudo. Quando terminei, uma colega de mesa, famosa, autora de várias obras, Monique Augras (“O Duplo e a Metamorfose”, sobre a possessão), virou para mim com um sorriso e disse com muita sinceridade e as melhores intenções: parabéns, tu és um grande contador de histórias! Me senti extremamente elogiado, especialmente vindo de quem vinha, tanto mais que eu era apenas um mestrando (e a quase totalidade do pessoal eram doutores). Mas a frase espelhava nada mais do que a realidade: nós, antropólogos, no fundo, no fundo, somos é uns contadores de histórias, embora procuremos tomar todas as cautelas possíveis para que essas histórias espelhem ao máximo a realidade. Portanto, ao te autodenominares contador de histórias não estás nada longe de nós.


Sobre eu defender a religião, de fato, sempre procurei fazer isto, porque sobretudo é gente que mora no meu coração. Mas sinto também que no mínimo é uma obrigação de minha parte, e não um favor, porque foi e é uma forma de devolver à comunidade o que ela me deu (aliás, escrevi um artigo para a Zero Hora sobre a perseguição aos sacrifícios de animais. Sei lá por que cargas d’água não saiu, embora o meu argumento principal tenha coincidentemente saído em uma coluna do jornal, tempos mais tarde... Acho até que seria uma boa transcrevê-lo, para que se torne público e forneça argumentos para o pessoal, caso a coisa se repita).


João, paro por aqui, agradecendo novamente tuas belas palavras sobre o meu trabalho. É possível que eu vá em breve a Porto Alegre (estou torcendo por isto) e então vou ter o prazer de te conhecer ao vivo. Que o teu pai Odé sempre de abençoe, que te defenda, com suas flechas, das coisas ruins da vida e te dê um assagéu espiritual perene, com muita saúde, felicidade, uouô no bolso e todas as realizações que desejas.


Do teu novo amigo


Norton


Final da segunda carta com resposta de Norton à Deodé.



A seguir a terceira carta enviada por Deodé à Rodrigo


Meu amigo.


Ontem 26 de Setembro de 2006, foi o dia do aniversário de meus Orixás Odé e Otim, completavam 36 anos de assentamento. Bem como toda a pessoa que passa por este momento pode imaginar o que se faz neste dia. Frentes, frutas, flores, velas, e a cabeça voando pela imensidão do universo dos Orixás.


No coração o sentimento de agradecimento pelo tudo que meu Orixá tem feito por mim. E na mente os acontecimentos do que foram estes 36 anos, dos amigos que conquistei, pelos filhos, netos, bisnetos. Uma vida dedicada à religião.


À noite fui surpreendido pela visita de um grupo de netos e bisnetos que vinham até minha casa bater cabeça e me trazer um abraço e um bolo que foi saboreado com refrigerante.


Fim da noite depois da família se recolher, fiquei sozinho e pude ligar o computador.


Bem meu amigo aqui a cobra fumou e a alma viajou e tu quase me matas do coração, entrei lá na comunidade "Batuqueiro... sim e daí". E fui repassando os tópicos e no tópico que eu havia postado "Ao Mestre Norton com Carinho".


Para minha surpresa, encontro a carta do Norton.


Amigo Rodrigo de Xapanã, eu não sei tua idade, pois, eu não te conheço, (não vai faltar oportunidade), mas vou carinhosamente te chamar de meu filho.


Rodrigo meu filho, por meu pai Odé, eu nunca me imaginaria merecedor da homenagem que tu me proporcionaste, foi o presente mais lindo que recebi em minha vida. Esta carta é a síntese de tudo que eu esperei receber em minha vida: O reconhecimento, (não sei se mereço tal agrado), mas ele veio em boa hora e me trouxe a certeza que vale a pena a gente ser autêntico, vale a pena a gente acreditar em pessoas honestas e do bem. Depois de ler por inúmeras vezes deixei rolar as lágrimas de agradecimento pelo presente ofertado pelos Orixás. Pois, acredito que atitudes como estas tem a conspiração de deuses e humanos para que ela possa acontecer.


Se tu olhares a foto de minha comunidade, verás ao fundo na porta da cabana do Pai Odé a placa e a data nela gravada, se tu leste a carta do Norton ela tem a mesma data, a do aniversário de meu Orixá. Será isso pura coincidência? Claro que não é, ela é fruto da conspiração dos Orixás para que eu pudesse receber este agrado neste dia.


Só faltou o amigo Norton colocar no fim de sua carta: Feliz aniversário ao Pai Odé.


E encerrando.


Meu amigo Rodrigo que teu pai Xapanã derrame as bênçãos divinas sobre teu eleda, que ele teu Orixá te de o axé de encaminhação, justiça e clareza. Que te proteja pelos caminhos da vida, trazendo a fartura, a prosperidade. Que neste ano da graça de pai Oxalá a tua porta esteja aberta e quem nela bater sempre encontre um prato de comida, uma palavra de conforto, de estímulo, esperança e fé.


Pelo tudo que tu me ocasionaste, ficarei eternamente grato.


Abraço do amigo Deodé


Final da terceira carta enviada por Deodé à Norton.



Quarta carta com a réplica de Deodé a Norton


Porto Alegre 28 de setembro de 2006


Ao Mestre Norton com Carinho.


Meu querido mestre Norton F. Corrêa.


Recebi tua cartinha eu coloquei dentro de uma caixinha que carrego do lado esquerdo do peito, ela tornou-se um marco em minha vida (A N, D N), ou seja, antes do Norton, depois, da carta do Norton. Ela será muito importante para eu estabelecer marcas e etapas de minha vida religiosa. O menino Rodrigo de Xapanã (que o Pai Xapanã o cubra de benção pelo gesto altruísta de nos apresentar e me dar este presente de tu me aceitares como amigo).


Mas eu quero com tua permissão relatar um pouquinho de minha vida e nesta trajetória a razão que me levou a contar às histórias que eu vivi dentro do Batuque. Senão vejamos: Quando completei 50 anos pensei: Bem aqui vou dar uma parada e contabilizar o saldo de minha vida e o que sobrar dela, (O último restolho) uns poucos anos vou me dedicar escrever as emoções de minha vida religiosa. Isso, com a pretensa intenção de deixar um legado a meus filhos, netos e bisnetos. Era dentro deste universo, o núcleo que eu pretendia atingir.


Para facilitar e antecipando um julgamento mais abalizado, eu só tenho a formação ginasial, tudo que tenho de conhecimento sobre letras são as que encontro nos livros, por ai já dá para se ter uma idéia de como seria dificultosa a tarefa de escrever um livro. Mas eu reunido com meus filhos afirmei alto e em bom tom: Eu João Carlos de Odé estou grávido de 10 livros e de hoje em diante o resto que tenho de vida será dedicado a pari-los. Bem, tu podes imaginar o berro do povo em uníssono. O velho Deodé enlouqueceu!


Para completar fui convidado a participar de um coquetel na noite de autógrafo de um livro.


Lá chegando comprei o livro e fiquei na fila para receber o autógrafo. Aqui abro um novo parêntese para informar aos que não acreditam em possessão.


Foi ali naquela fila que incorporei o escritor, porque o contador de história já morava dentro de mim. Faltava a alavanca propulsora, o desafio, a coragem de por no papel todas as emoções que eu vivi dentro do Batuque.


E parafraseando meu tio escritor, Raul Sotero de Souza que escreveu o livro “Desperta Rio Grande”, quando a coisa perdia seu rumo, ele prendia o grito: (La grãn puta que pariu, se foi à gata com a cinta). Naquela noite mesma cheguei em casa e debulhei a escrever, de posse de um caderno, um lápis, um apontador e uma borracha para pagar os garranchos, mandei ver.


Bem meu amigo Norton, (desculpe por eu me alongar na narrativa, mas no fim tu vais ver como foi importante a tua carta e a oferta de me aceitar como amigo). Ao cabo de seis meses tinha eu trezentas histórias do Batuque.


Lembro-me ainda da primeira história que eu vomitei: “Com a Mesma Moeda”, uma história de minha avó Jovita de Xangô Agodô. A história saiu de minhas entranhas feito ferro em brasa, que quando escrevi a última frase me pus a chorar feito terneiro desmamado.


E na carta sei que vivi para por no papel minhas emoções, eram momentos de puro sofrimento e dor de rememorar cada fato por mim narrado. Dizem os antigos que recordar é viver! Por isso busquei mesclar a dor de alguns fatos, com a alegria de outros tantos, sob pena de não conseguir escrever o livro.


Terminado fui correr atrás do dinheiro para pagar a gráfica.


E tchau e bênção.


Agora é que a porca torce o rabo e a merda pega no tamanco.


Descobri tempos depois através de meus leitores que o meu livro era um boletim de ocorrências e denúncias tipo estes que tem nas Delegacias de Polícia.


E alguém ainda me avisou: “Põe tuas barbas de molho, pois tu vais te incomodar, teu livro tem muitos CHAPÉUS e não vai faltar cabeça para pôr embaixo”. E foi.


Para começar o primeiro aviso veio de uma pessoa de uma instituição que eu ajudei a fundar com um outro saudoso Amigo.


Em uma ocasião convidado pelo amigo Pernambuco a participar de um Seminário promovido por essa mesma instituição em conjunto com a Federação Espírita, da qual o Pernambuco era presidente (levei 50 livros para ofertar aos participantes), fui recepcionado por essa mesma pessoa com uma única frase: João Carlos de Odé o teu livro “Yemanjá Quer Falar contigo, não serve para limpar o meu cu”. E ponto. Meu Deus socorro. Isto tudo no saguão da Câmara dos Deputados. Minha resposta: talvez se o amigo limpasse o cu com um Caderno Dominical de Zero Hora seu cu seria alfabetizado. E fim.


Detalhe muito importante: na entrada do saguão uma imensa mesa repleta de livros (mais de vinte) todos versando sobre Literatura de Candomblé. E ali no meio daquele manancial de Cultura Africana o meu pobre livrinho orgulhosamente mantinha a altivez de ser o único do Batuque. Segundo detalhe importante: todos para vender, o meu para ofertar. E aquela multidão de Babalorixás e Yalorixás, manuseando os livros de Candomblé e nada, na dica de nada de apanhar nas mãos o meu rebento, nem que fosse para fazer uma pequena caricia.


Eu ao lado da mesa cabisbaixo e mudo pensava: “Agüenta meu filho, o pai está aqui, tu não ta sozinho”. E agora a surpresa maior ninguém se interessou a GANHAR o livro, terminada a cerimônia de praxe, pus eles (os 50 livros) na caixa e debandei. Por meu Pai Odé Misericórdia. Mas não saí dali sem deixar uma ameaça a tal pessoa. Daqui alguns anos eu terei meu trabalho reconhecido, nem que sejam passados 10 anos de minha morte, e teu Orixá vai te dar saúde e vida longa para tu poder entrar em uma livraria e ver nas prateleiras 10 livros meus. Os livros já estão prontos resta-me publicá-los.


Acho que fugi um pouquinho do texto.


Voltamos as vacas frias.


Naquele ano fui brindado com 8 processos por pessoas que se sentiram atingidas pelo livro, todos se dizendo babalorixás. Maldição.


E passei da mesa de Búzios e quarto de santo o que era minha vida para freqüentar corredores de tribunais. Pode?


Não desisti, segui em frente.


Mas tudo isso foi me derrubando, desestimulando e me afastei dos amigos e por me senti só, busquei no refúgio de meu quarto de santo o bálsamo para as minhas dores e cicatrizar minhas feridas.


Quando eu achei que o mundo era o caos final, eis que recebo tua cartinha (isso é carinhoso). E foi com lágrimas nos olhos que li e reli cada trecho, bebi em tuas palavras e me senti amparado, confortado, pois, sei que tu também foste por diversas vezes incompreendido.


E o mais importante ela chegava no dia que meus Orixás estavam de aniversário 36 anos de vasilha (26-09-2006). Pensei isso é um aviso.


Tenho que saber ler o que os Orixás querem me dizer.


Vou procurar terminar aqui, se não te dou um cansaço.


E Terminando...Ufa...cansei.


Mas um outro fato que me deu alegria foi meu segundo livro, “O Malandro e o Gaudério”.


Com meu livro embaixo do braço, procurei o meu querido amigo Antônio Augusto Fagundes para fazer o Prefácio.


É aqui que tu entras:


Vou colocar a seguir o prefácio que ele escreveu no meu livro "O Malandro e o Gaudério": "é um relato importantíssimo de um Rio grande das primeiras décadas do Século Vinte, fiel em suas observações campeiras e igualmente fiel á etnografia do denso mundo do Batuque porto-alegrense. Fala da amizade, que é uma das mais lindas manifestações do amor. A cultura afro gauchesca e a multifacetada interpretação, a recíproca influencia entre negros (escravo e seus descendentes) e gaúchos pêlos-duros ainda não foi dimensionada, apesar dos estudos do Dante Laytano, Carlos Galvão e da poesia do excelente Oliveira Silveira. Este livro é uma contribuição neste sentido". Antônio Augusto Fagundes.


Aqui meu amigo Norton F. Corrêa tens teu lugar reservado, pois teu livro “Batuque no Rio Grande do Sul”, é uma contribuição para o resgate do passado Cultural Africanista. E para encerrar esta cartinha, pela oferta de tua amizade que é uma das mais lindas manifestações de amor. E eu que pensava que a fonte havia secado e minha inspiração havia morrido. Há tempos parei de escrever, mas ao terminar de ler tua carta senti uma vontade louca de voltar a escrever.


Por tudo isso muito obrigado, mas, muito obrigado mesmo, pois, hoje voltei a escrever.


Abraço do amigo Deodé.


Final da quarta carta com a réplica de Deodé a Norton



Quinta carta com a tréplica de Norton à Deodé


São Luís do Maranhão, 28 de setembro de 2006.


Meu caro João Carlos do Odé



Fiquei muito surpreso com o fato de a chegada da minha carta às tuas mãos acontecer exatamente no dia em que o teu Odé fazia 36 anos. E fiquei muito alegre tanto pela felicidade que ela te proporcionou (Okê, Oke-bâmbo!, como dizia o velho tamboreiro Donga da Iemanjá), como pelo estímulo para voltares a escrever.



Li com muito gosto a resposta da carta que te enviei em 26.9 pp. e posso imaginar as agruras que passaste com o teu livro, os processos que sofreste, o desprezo do pessoal pelo livrinho, diluído entre os do candomblé no evento da Assembléia, tuas decepções e conseqüente perda da vontade de escrever.



Pois tenho uma coisa muito importante a te dizer. Na carta que me enviaste me disseste que não passavas de um contador de histórias. Só que, lendo a tua carta, descobri que não és um contador de histórias qualquer, mas um ótimo contador de histórias. É verdade, fizeste uma descrição muito bem feita do que passaste, com um estilo direto e que segue o falar cotidiano, além de momentos muito bem humorados, o que torna o texto muito interessante e agradável de ler. És, em suma, um ótimo escritor, com um estilo muito pessoal. Não estou dizendo isto para elogiar, puxar o saco, e sim, com muita sinceridade – sou um cara muito crítico, como leitor e me policio muito como escritor.



Já disse para várias pessoas (uma delas o Borel, meu amigo do peito) que vocês, religiosos antigos, deveriam escrever sobre o que aprenderam dos ancestrais, no batuque, além de descrever e comentar as experiências pessoais, as vivências, para deixarem como herança e testemunho para as novas gerações. Vocês, especialmente os que têm longa vivência na Religião, são uma memória viva cujos conteúdos têm de ser transmitidos ao longo do tempo. A única receita que recomendo para estes escritos é que façam simplesmente um relato, tirem conclusões, mas que sejam evitados a todo custo julgamentos comparativos sobre pessoas e/ou rituais alheios. Imagina, pergunto, se, em meu livro, eu dissesse que todos os sacerdotes que eu pesquisei eram os únicos que estavam certos e todos os demais só faziam bobagens? Ou que dissesse que tudo o que se escreveu sobre o Batuque, exceção do meu livro, é bobagem, também? Seguramente, ninguém ia querer saber do meu livro, não é? E nem de mim! Assim, acho que te darias muito bem, além de prestares um serviço imenso para a religião, se narrasses as tuas experiências como batuqueiro e pai de santo, o que ouviste e viste durante este tempo, as coisas da D. Jovita. Tens, repito, um grande dom para isto, muita habilidade para descrever situações e fatos. Estou torcendo para que os novos escritos sigam nesta direção. Por certo não ficarão abandonados no meio de livros sobre candomblés e similares.



Um grande abraço do amigo


Norton



Final da quinta carta com a tréplica de Norton a Deodé





Gostaríamos de finalizar esse diálogo inicial entre os dois mestres com uma mensagem postada pelo Norton para João Carlos:


Deodé, tuas histórias, inclusive as que li no "Yemanjá quer falar contigo", são simplesmente maravilhosas. O importante delas é que, falando sobre pessoas e contando episódios, o que fazes, na verdade, é compor as entrelinhas do grande quadro que o Batuque representa, pois na fala e ações destes personagens está a visão de mundo batuqueira, o que e como seus integrantes pensam sobre si e sobre o mundo. Por isto, sob a aparências de simples histórias, estão relatos que trazem dados tão ou mais importantes, sobre o culto, do que muitos daqueles que nós, pesquisadores conseguimos alcançar, porque não temos a tua vivência, tu falas "de dentro". Com certeza, o Jorge Amado assinaria com prazer e inveja teus escritos. Com prazer, porque são ótimas, algumas muito melhores do que as dele. E com inveja, porque, claro pegou algo do espírito do Candomblé, mas não como tu, com a perspicácia que tens para captar fatos, principalmente porque escreves "de dentro". Assim, Deodé, por favor, continua garimpando na memória e nos brindando com estas tuas histórias maravilhosas, com teu estilo visceral, espontâneo e agradável com que escreves. Mil parabéns!!!!


Norton F. Corrêa - antropólogo



Concluímos aqui o diálogo inicial nessa versão estendida entre os dois mestres. Observamos que foram chamadas de cartas, em alguns momentos pelos próprios autores, as postagens em uma antiga rede social da época. Da mesma forma, buscando preservar pessoas e instituições foram ocultados nomes do diálogo original para manter o direito ao sigilo de cada indivíduo.


Esperamos que tenham gostado, desta nova história que foi criada a partir a oportunidade fornecida pelo nosso Amigo, Antropólogo, Professor, Doutor, Autor, nosso mestre, e também protagonista desta história. Fica o nosso muito, mas muito Obrigado Norton! Lá do fundo do coração, seremos sempre gratos por nos permitir registrar um importante capítulo da história do nosso contador de histórias do Batuque Pai João Carlos Deodé. Já que muitos apenas o conheciam através das suas histórias, aqui pudemos conhecer um pouco mais sobre alguns dos fatos marcantes da sua vida, e como era o seu processo como autor que certamente ajudastes a construir. Hoje nos cabe apenas o acesso ao seu legado. Justamente por esse motivo, ficamos muito felizes em poder contar com teu apoio, nesse processo de registro da sua obra no formato digital que para muitos de nós, "quissá todos", parafraseando a expressão clássica do nosso grande mestre, é de valor inestimável para as próximas gerações da nossa querida religião. Assim como a sua obra, "O Batuque do Rio Grande do Sul". Sobre a escolha do título desta história: e não é que o nosso autor estava certo. Mais de 10 anos depois seus canais digitais mostrando um pouco do Batuque praticado no tempo antigo, tem hoje, mais de 50 Mil acessos. E de pensar que naquele dia fatídico, não conseguiu "DOAR" 50 livros. Rimos aqui, agora, hoje, todos juntos dessa história, "não é mesmo?", kkkk

Acesse essa outra História agora diretamente do site do Prof. Norton:

https://www.profnortonfc.com/post/o-monstro-sagrado