Eles x Elas

Conheci o negro Sidnei de Xangô, filho de Santo de dona Ana de Oxalá nos meados de 1970, ele trabalhava na Geral de Indústria, uma fabrica de fogões, ali na Avenida Bento Gonçalves, na ocasião, eu era gerente da Farmácia Drogabir do outro lado da rua. Éramos companheiros de ônibus e de Batuque. Um dia em conversas que não levam a nada descobri uma particularidade daquele qüera: odiava bicha, que coisa mais estranha tchê, pois, não é que era um ódio incontido, sem explicação ou razão de ser, acredito que ele nascera com aquilo, não fora motivado, educado, ou estimulado a evidenciar aquele sentimento mortal, desprezível e preconceituoso. Até porque, desde a sua tenra idade, passando pela infância e adolescência ele vivera cercado e acariciado pelas beldades do mundo afro-gay. Mas, não se sabe de onde, num repente o negro escancarou de vez a ojeriza pelas criaturas e o pior passou das palavras a ação de acabar com esta praga chamada homossexualidade. Bem, ai a coisa engrossou e o bicho pegou, para não dizer as bichas pegaram pesado no negrão. Minha avó sempre dizia: “Quando um não quer dois não brigam”, pois, na razão inversa as criaturas passaram a reciprocidade, ou seja, retribuíram com o mesmo ódio e preconceito ao negrão. No começo, era linda de ver as pequenas disputas e as frases que vinham carregadas de preconceitos, com o objetivo de ver quem feria com mais sutileza e educação, a moral do outro. Total todos os envolvidos eram irmãos do Batuque, feitos na mesma bacia, queiram ou não queiram, tinham que conviver no mesmo espaço. Isso por si só já era terrível, ter que estar ali, lado a lado, no trabalho, na roda do Batuque, na cozinha, no quarto de santo, sempre compartilhando das tarefas que recebiam da Mãe de Santo. A Mãe dona Ana de Oxalá, era de uma paciência e tolerância a toda prova, mantinha os desafetos separados por um fio de linha, não admitia atitudes preconceituosas, exclusão ou separação, fosse ela por qualquer razão. Eles teriam que aprender a conviver juntos. Mas, a negrada não queria saber o que ela pensava, era se encontrarem para começar os bate-bocas, um Deus me acuda, um pega-pra-capar. No começo diálogos intercortado por frases ardilosas, acrescidas dos sorrisos irônicos de canto da boca, para no passo seguinte, esgotada a educação, o ranger de dentes e os desaforos escancarados. O interessante que minha participação como correspondente de guerra me facultava o direito de aprender mais sobre Fundamentos do Batuque e as ditas relações humanas, haja vista, que a maioria das brigas sempre envolvia jactância do saber, no se dizer mais conhecedor destes ou daquele fundamento, desta ou daquela nação, pois, a maioria das discussões era originaria da correção de alguma coisa errada, seja na elaboração de uma frente para os Orixás, ou numa reza mal cantada, ou, de atitude inconveniente durante o ritual ou cerimonial. Qualquer deslize ali estava o negro Sidnei para avançar nas goelas para ridicularizar e desmerecer as pobres bichinhas, normalmente as novatas no universo do Batuque. Elas por sua vez aguardavam qualquer momento de descuido para ironizar o sabichão, metido a Babalorixá. Ele jurando ser profundo conhecedor, se entregando na maioria das vezes numa saia justa, coisa que no Batuque, é pecado crucial, qualquer descuido, a vaca vai para o brejo. No caso do negrão, perfeccionista, detalhista e com tempo de casa, nunca em hipótese alguma poderia acontecer. Mas ninguém é perfeito um belo dia a casa cai e caiu. Para dona Ana de Oxalá estas delongas eram o ideal e de bom somatório para o desempenho das tarefas, tínhamos a certeza que nunca haveria erros, pois, tínhamos uma equipe de supervisoras (As Bichas) e um Todo Poderoso chefão (O negro Sidnei) a executar as tarefas e lides da cozinha e quarto de santo, tudo de bom para o Batuque. Mas, estas disputas foram mais longe e se perderam e extrapolaram as raias da loucura. E aqui e agora, eu passo a relatar para o deleite de meus leitores. Aquele negrão tinha suas manias, dentre estás uma a se destacar: sábado pela manhã era o dia para dar uma volta no Mercado Público, Praça da Alfândega e depois ir ao barbeiro cortar o cabelo, se afeitar para o Batuque que aconteceria à noite. Mas o negrão guardava escondido no fundo da alma uma supertição muito peculiar e interessante, ou seja, o passeio acabava se ao sair a rua desse de cara com uma bicha. Se ele saísse no portão e botasse o olho numa criatura, retornava por onde veio. Acrescentava “ver uma bicha na saída para a rua, pode acreditar o dia esta perdido”, dito isso retornava e retirava a roupa e desistia do passeio. As criaturas sabendo de antemão desta peculiaridade, resolveram armar para cima dele. Numa sexta-feira na hora do serão dona Ana de Oxalá reclama do cabelo e da barba do negrão Sidnei com uma única frase: “Sidnei meu filho, se amanhã tu tiveres com este cabelo e esta barba, não vais participar da festa e sequer entrar no salão”. Prá que! As Bichinhas escutaram a frase e só se olharam, não perderiam a rica ocasião que os Orixás acabavam de ofertar. Combinaram que aguardariam o horário no sábado pela manhã da saída do negrão para oferecer a grande surpresa. E foi o que fizeram. O negrão morava num quartinho nos fundos do salão do Batuque de Dona Ana de Oxalá. Na manhã seguinte as bichinhas em numero de oito, se organizaram e cercaram o quarteirão como quem cerca boi no brete. E ali aguardaram a saída do vivente. Ele na maior paciência, se arrumou, se perfumou e rumou na direção do portão, estava a atrasado não podia perder o horário do ônibus. Mas, foi abrir o portão e botar o focinho na rua para a primeira bichinha passar em frente da casa e pedir modestamente a sua benção. Voltou para dentro de casa e se prendeu a rogar praga para a pobre criatura. Mas não desistiu, voltou e foi de novo na direção da rua, saiu as pressas, no que botou o pé na rua, teve seus passos intercortados por duas lindas criaturas que não só o cumprimentaram como pediram com carinho e respeito à benção de seu Orixá Pai Xangô, e fizeram questão de beijar suas mãos. Socorro policia. Retornou para dentro de casa, só que desta vez foi rasgando a camisa rebentando as guias que carregava no pescoço e jogando tudo no lixo. Quando estava dentro de casa lembrou do aviso de Mãe Ana: Cabelo e barba cortado ou sem Batuque. Meu Deus e agora o que faço. Pensou e pensou e finalmente encontrou um escape: Pular o muro e sair para a rua pelos fundos do quintal. Pena... Porque as gurias também tiveram a mesma idéia. Ele conseguiu a duras penas pular o muro, mas quando saltou, errou o pulo e coincidentemente caiu no colo das meninas que o aguardavam sentada na calçada. E foi assim que quando chegou a noite ele foi impedido de entrar no salão e participar da festa, total, dona Ana de Oxalá predicava pelo asseio e a boa imagem de sua família religiosa. E foi naquela noite, que ele ajoelhado à porta do quarto de santo jurou mata-las a pauladas. As criaturas por sua vez se rasgaram na roda principalmente no jejo da Mãe Yansã. Que coisa de louco tchê. E pelo mundo afora se seguiu àquela quizila, parecia que não tinha nem tempo, nem hora para terminar. Eu aqui só na fresta, esperando o circo pegar fogo. De outra feita o Negro Sidnei entrou no quartinho de trocar roupas e vendo o axó de uma delas, deu de mão numa tesoura e fez alguns ajustes no comprimento, e acrescentou: “Roupa de mulher tudo bem, mas homem vestido de mulher nos Batuques tenha dó minha Mãe Obá”, dita isso, meteu a tesoura até o cabo. À noite no iniciar do Batuque a Sandrinha a bichinha da Obá derreteu-se em lágrimas. Ele ali só sorrisos. Mal sabia ele que bicha em casa de Batuque quando dá, dá em penca. Elas saberiam devolver com juros e correção monetária aquele atrevimento. Anotem ai, vem demanda da grossa.

Tinha o negro Sidnei uma bombacha que era seu xodó, só vestia aquela peça rara em Batuques especiais, coisa de 20 metros de tecido, rodando aquilo mais aprecia um toldo de circo tal o deslumbre. Bem, é por aqui que elas começaram a vingança. Como? Não sei, mas elas conseguiram pôr as mãos naquela preciosidade e com calma e perícia e auxiliadas por uma lamina de barbear, descoseram parte das pregas e do elástico que prendia na cintura, usar tudo bem, mas dançar um alujá tendo o Pai Xangô cavalgando aquela cabeça, bem ai é querer de mais daquelas costuras. E foi por ai que se deu o desastre. Foi só o Orixá despencar do galho e se dirigir para frente do tambor para termos o Pai Xangô desnudo e envolvido naquele manancial de tecidos. Meu Deus que horror, aquilo foi rasgando pelas pregas do cu e se desmanchou feito um castelo de cartas. Socorro policia. Tive de despachar o Orixá na mesma hora. Claro que sai porta afora me contorcendo de tanto rir. Bem, mas tem retorno nada se faz impunemente. E o tempo dirá. Passado um mês, ele com aquela mente privilegiada pelo demônio, sabendo que as criaturas amavam um Atãm, feito com as frutas da mais diversas (laranja, morango, abacaxi, mamão, manga), tomou para si a responsabilidade de descascar as frutas, picar e acrescentar água, xarope de groselha e açúcar, claro que sendo para as nossas deusas e amadas bichas, tomou a deliberação de acrescentar dez pacotes de chá de Sene. Tudo feito com carinho e amor e ofertado a suas prediletas amigas, (põe amiga nisso). Elas naquela inocência, bobas esquecidas das tramóias anteriormente praticada, beberam que se fartaram, bem foi ai que se deu o desastre. O Batuque rolando, o coro comendo solto, elas na roda se rasgando de tanto dançar para os Orixás, foi quando começaram a sentir pequenas indisposições estomacais, para a seguir dores e contrações abdominais de se retorcer, mas elas são teimosas e obstinadas não cederiam tão fácil. Foi quando os gases nos intestinos aumentaram a pressão. Bem, daqui a diante não tem quem segure e foi aquela correria na direção da casinha. Sim, pois, choveu merda no Partenon e foi um tal de sai da frente que aqui vai gente, ou um tal de abre a porta pelo amor de Deus. Com aquela correria que se estabeleceu até eu fui conferir e deu para ver que faltaria papel higiênico naquela casa, pelo tamanho da fila que se estabeleceu à porta da patente. Três dias depois elas desfiguradas, de olheiras que ocupava metade da cara, enfraquecida pela perda de líquido permaneciam em constante idas e vindas na farmácia em busca de medicamentos que parasse aquela diarréia desatada. Ele só sorrisos. Bem, aqui chegou o limite da contenda, todos nós sabíamos que a astúcia e malandragem dariam lugar a armas de maior poder e calibre, aquilo não se resolveria com palavras ou ponderações, chegara à hora da onça beber água, era a hora de botar a mão na macumba e feitiçarias, e foi o que se deu. Começaram abrir bales e buracos e cercaram de frentes e oferendas. Agora a merda vai pegar, mas no tamanco. O negrão que trabalhava no Porto descarregando navio, foi despedido, a namorada, a negra Tânia de Yansã ornamentou a cabeça do infeliz um belo chapéu de vaca, afora erisipela, sarna, piolho e muquiranas e afins, se somaram naquele corpo sarado, a dor e o ranger de dentes chegaram para ficar. Era a força da feitiçaria botando para conferir, era a magia do povo gay, aplicada naquele corpo, para se não dobrar, pelo menos rachar ao meio. Tem quem não acredite, me afastei, não sou louco de ficar por perto, vai ver que sobra algum para os circundantes.

E foi assim que terminou aquela bela guerra.

Só um minutinho tem alguém batendo palmas no meu portão, vou ver quem é e já volto para terminar de te contar esta história.

Pois, não é que era o negrão Sidnei.

Estava só o osso, tísico, magro, seco, numa tristeza de dar dó, era o que restara do belo rapaz, opa, me esqueci que ele não gosta desta frase: “Um belo rapaz”. Convidei-o a entrar. Já dentro de casa lavei o saco e passei um café, já de posse das xícaras, servi e esperei, sabia que quando aquele negralhão abriu-se a boca viria o derramamento de lamentos e dores. Calei e fiquei só na escuta. E ele foi, contudo.

Deodé meu irmãozinho estou nas últimas, estou passando por um cortado, estes putos não me dão sossego, estão numa perseguição na minha vida, não me deixam um minutinho em paz, estou num sofrimento, desempregado e a minha mãe de Santo dona Ana de Oxalá não vê isso. Até ela esta do lado daquelas infelizes. E seguiu naquela ladainha de dar dó. Eu só ouvido. Entre um café e um cigarro ele se dispõe me ouvir, não me restou outra alternativa cair de pau em cima do negrão.

-Tchê negrão que mal eu te pergunte o que tu tens contra os homossexuais?

-Deodé eu não tenho nada contra a opção sexual deste povo.

Como assim? E acrescentei outra pergunta: o porque que tu vives perseguindo as pobres criaturas? Naquele tempo os pais machistas ao descobrir um filho gay, expulsavam de casa e a porta de uma casa de Batuque era o Porto Seguro, ali encontravam guarida e amparo a suas angústias e sofrimentos.

Deodé, este povo ainda vai fazer um estrago no Batuque, espera e quem viver verá. Elas ainda não botaram a mão nos axé de faca e búzios, deixa estar, espera e tu vais ver o que estes homossexuais vão fazer com o Batuque, amanhã quando tiverem casas abertas vão até fotografar e filmar de mãos dadas com seus lindos bofes à porta do Quarto de Santo. Até ai Deodé o Batuque vai ser enterrado no fundo de um poço, até desaparecer da face da terra.

-Bobagem meu irmão ninguém tem este poder, tu ta imaginando coisas.

-Deodé os Orixás hão de te dar muitos anos de vida para que tu possas ver isso. Dito isso ele saiu pelo portão e nunca mais o vi, até hoje tenho saudade do meu amigo Sidnei de Xangô. Às vezes lembro-me de suas previsões e fico a perguntar: Será que ele tinha razão? Para esta pergunta só o tempo pode responder. Quanto a elas, continuam deslumbrante, lindas, divinas, maravilhosas e acima de tudo poderosas. Detém 90 por cento do Batuque em suas Mãos, só espero que não confirmem o vaticínio do Sidnei.