Negro Jairo

de Yemanjá Bocy

O negro Jairo era feio, Meu Deus como era feio aquele vivente. Deus devia estar de porre quando criou aquela criatura, imaginem dois metros e dez de altura, por 1.20 de largura, mais parecendo um guarda roupa de casal com as quatro portas abertas, tendo as outras partes do corpo mal distribuídas se é que se pode dizer distribuídas quando, mais pareciam emendadas ou colados naquele corpo. Sobre os ombros largos, aquela enorme cabeça, que mais parecia uma melancia.

De braços desconjuntados carregando enormes mãos como se fossem duas raquetes de tênis, somadas as pernas tortas, tipo as do Nané Garrincha. Ali onde supostamente teria que ter uma barriga, encontramos uma trouxa de roupas sujas de imenso volume, já que metade da cueca dançava por fora das calças. A base para dar estabilidade e segurar aquela imensa obra eram dois pés do tamanho de duas pranchas de surfe.

Aquilo que se pensava gente circulava no meio batuqueiro como se fosse a bela adormecida, desperta que fora de seu sono angelical, por um beijo de algum príncipe encantado. Delicado e cerimonioso, obsequiado e gentil com todos que o cortejavam dentro do universo do Batuque. Quem o conhecia fazia questão de desconhecer.

Nos salões de festa de Batuque o povo desviava de conversações e cumprimentos ritualísticos, sai pra lá urubu de mau agouro.

Mas ele não estava nem ai para cara amarrada ou desdouro, seguia em frente como se nada o dispusesse ao contrário, feliz e radiante dançando e cantando as rezas dos Orixás.

Convite participar de Batuque nunca chegou a sua porta, ninguém era louco de querer aquilo em suas festas, mas ele não queria nem saber, tinha festa e lá estava ele de plantão sendo sempre o primeiro a chegar e o último a sair. Bobagens me poupem... Festa de Batuque é como missa em igreja de vila, a porta aberta é convite irrecusável a participar. Avante estamos dentro.

Mas uma coisa a destacar: era a conduta irretocável digna do povo do santo.

A Mãe de Santo Dona Chininha de Yansãn quando jogou os búzios para saber que Orixá governava aquela cabeça quase teve um derrame quando na queda dos Búzios, entre os oitos jogados o ultimo saltou sobre a guia imperial de mesa e foi se alojar entre o Bará Ajelú e Yemanjá Bocy. Ela apanhou rapidamente os búzios tentando esconder o que eles revelavam. Quando ela própria não queria acreditar. Não! Aquilo não podia ser verdade. Ela Mãe caridosa, com paciência relutou em aceitar tal afirmativa e voltou a apanhar os búzios e jogar novamente, buscava uma afirmativa na decodificação da queda dos búzios, total aquela configuração era um descalabro, Mãe Yemanjá Bocy só podia estar brincando. Mas não era.

O infeliz quer queiram, quer não queiram, era filho de Yemanjá Bocy. Sim da coquete dos Orixás, a princesinha das águas salgadas a mais doces da Yabás nossa Mãe Yemanjá.

O negro atrevido recebeu a sentença derradeira com indiferente e soberba e aproveitando a ocasião afirmou em alto e bom tom: “Eu sempre soube que Mãe Yemanjá Bocy era meu Orixá de cabeça”. Mas que audácia daquele Exu, como se cada um pudesse escolher seu Orixá de cabeça a porta do quarto de santo. Mas era e tenho dito e tchau e benção, estava decretado que aquele monstrengo tinha Mãe e o resto, bom o resto é o resto. E quem não gostou que fosse se queixar no Orún para Oxalá de Orumiláia.

O negro Jairo saiu daquela mesa de Búzios com o peito inflamado de tanto orgulho por ser escolhido por aquele Orixá.

O povo do santo quando a noticia saiu as ruas passaram a comentar a boca pequena que dona Chininha de Yansãn estava muito velha e não enxergava mais nos Búzios, aquilo não podia ser verdade. Mas o pior é que era.

Passado tempos, o que todos aguardavam era a revelação, a chegada, ou como diria o gaudério: “Ser do Orixá tudo de bom, o que eu quero ver é a incorporação”. E todos aguardavam ansiosamente a chegada da grande Mãe para cavalgar aquilo.

Sim, pois, ninguém sonhava ver uma Yemanjá carregar aquele monstro. Ora bolas... Com tanta menina bonita naquela casa o que uma Yemanjá Bocy quereria com aquilo.

E por ai seguiram-se as expectativas, e o longo tempo de espera. Teria a Mãe Yemanjá Bocy coragem de se lançar ao meio do salão cavalgando aquele monstrengo em sua dança divina de doce enlevo, quando aquilo tinha a figura do ogro Sherek. Não. Isso não podia acontecer, era pedir muito da tolerância dos Orixás.

O que me obrigou abrir a bolsa das apostas e ver da possibilidade de faturar uma grana por fora. A cada festa de Batuque punha o povo em polvorosa na busca apostar para faturar o premio, ou seja: vai ser nesta festa que a Mãe vai chegar? Para os incrédulos era apostar que nunca uma Yemanjá cavalgaria aquela cabeça e se tratando de cabeça aqui estamos sendo indulgentes, pois, aquilo era um terror. E nunca esquecendo dos cabelos, um emaranhado tipo de grama, como se fosse uma leiva relvada, alisada com ferro quente e óleo. E na dificuldade de enxergar tinha sobre o nariz um óculo fundo de garrafa que ele carregava os muitos anos, tendo no centro na ligação dos dois aros um fio de arame atado e um pedaço de esparadrapo a emendar a parte quebrada e assim poder sustentá-los sobre o nariz. Se é que pode se chamar de nariz aquilo que mais parecia uma batata doce assada. Quando questionado sobre as emendas de cor branca, trocou por um pedaço de fita isolante preta.

O mais debochado de meus irmãos negro Roberto de Ossanhã saiu pela vila a captar as apostas e choveu dinheiro do grosso, todos queriam participar na possibilidade de fatura o premio maior e, que a estás altura já tinha três dígitos.

Mas imaginar a Mãe Yemanjá Bocy dançando um jejo era coisa que não passava pela cabeça dos apostadores, todos apostavam que aquilo nunca a Yemanjá nasceria. Agora aqui comigo no meu imaginário enxergava aquela Yemanjá menina deitada no fundo do mar, dentro de sua concha cercada por cavalos marinhos, golfinhos e peixinhos de todas as cores, saboreando um cacho de uvas brancas e ouvindo o som dos tambores, chamando por sua presença na Festa de Batuque para cavalgar seu filho querido. Será que ela viria? Claro que não, aquela guria não seria louca de vir ter com o tal filho. Se ainda fosse o Janequine tudo de bom, mas aquilo nem pensar.

E passamos a ficar só na fresta do salão a observar o rol dos acontecimentos já que nossa aposta era que a mulher viria e botaria para derreter, sem essa de temer tal feiúra.

Tinha ela que pegar, total as mães nunca repara na feiúra, todos os filhos são lindos perante os Orixás. Na nossa aposta em questão, com perdão, a pobre Mãe Yemanjá teria que cavalgar aquilo para que a grana viesse ter em nossos bolsos.

Em uma festa no jejo de Yemanjá alguns Orixás mais atrevidos cercaram e levaram o monstro a desfilar pelo salão, primeiro a porta da rua e a seguir porta o quarto de santo, era a justa homenagem pelo sacrifício por ele despendido na realização daquela festa. Pra que! O povo foi à loucura juravam que a Mãe Yemanjá tinha se encostado no negrão. Bem, aquilo foi o ápice das apostas e fez tremer a bolsa de valores de São Paulo e ouve queda na NASDAC, no outro dia o rumo das apostas tomou outra direção, dividiu o grupo dos que era contrário à chegada da Yemanjá e aumentou consideravelmente o numerário do premio. O que antes tínhamos como fava contada, considerada uma barbada de faturar, virou osso duro de roer. Eu que já sonhava com aquela grana no bolso vi que se não arquitetasse um plano para os fatos acontecerem o premio ia criar asas.

E na manhã seguinte fui à busca do Roberto de Ossanhã ali no Morro da Cruz para um pacto na divisão daquela grana e elaboração do projeto para que o destino tiver o desfecho final. E o combinado foi o seguinte: Iríamos dar um empurrãozinho para a Yemanjá pegar o negrão no tranco na hora da execução dos jejo. Para facilitar a chegada do Orixá ficou estabelecido que um de nos empurrasse a criatura salão adentro e a Mãe Yemanjá que tomasse conta, total o filho era dela. E foi o que fizemos. Pra que Meu Deus! Foi o Roberto empurrar o negrão para dentro da roda que na mesma hora uma força estranha mandou o negrão de volta. Aquilo me irritou e com raiva dei um solavanco e mandei o negrão para dentro do salão no meio dos Orixás e ele saiu dando dois passos pra frente e dois passos pra trás. Mas de chegar a tal Mãe nada. Que coisa de louco tchê, hoje em dia não da pra confia nem nos Orixás.

Alguns mais entendidos de chegada de Orixás juraram ver a Yemanjá Bocy empurrando o negrão de volta, mas isso é bobagem. Coisa de gente espiritada e visionaria interessada em faturar a grana do premio. E eu não sou louco de entregar mão beijada o montante reunido com tanta dificuldade. Vamos aguardar essa Mãe se manifestar.

E o povo se fazendo de louco querendo receber a grana no mole afirmavam ter visto a Yemanjá dançando em batuques dos mais diversos nas cercanias do Partenon. Espertos eles? Comigo não violão quero testemunhas, coisa que nunca apareceu.

Para não sermos injustos com os apostadores ficou estabelecido que a grana fosse para o bolso do primeiro que tomasse um axé da grande Mãe Yemanjá. Isso sim é justo e de bom tamanho.

Foi assim que o assunto foi parar nos ouvidos de Mãe Chininha de Yansãn que nos mandou chamar para uma conversa ao pé do ouvido dentro do quarto de santo. Aqui a cobra fumou e a merda pegou no tamanco. Dona Chininha não era de muito assuntamento, foi à gente botar as fuças no salão, que ela já foi pra cima de dedo em riste gritando: Não quero nem saber de quem foi à idéia e não estou aqui para julgar se a Mãe Yemanjá chega ou não chega, só quero que acabem com essa brincadeira. Socorro policia! Não dizemos nenhuma palavra entramos mudos e saímos calados. Já na saída pelo portão a ouvimos ela aos gritos perguntar do quanto andava o montante da grana do premio? Eu falei: De mais de três contos de reais. Ela gritou lá do salão: Então taca duzentinhos de ficha na aposta que ela chega, pois, hoje eu mesma vou dar um jeito deste fato se consumar. E soltou uma enorme risada debochada. Fez-me até pensar que a Mãe Yansãn tinha chegado. Mas não era ela. Então era o que? Então era isso, ela também estava de olho no grande premio.

E o que se seguiu foi o grande terror e a expectativa de ver a tal Mãe se fazer presente. Agora quando se daria? Só Deus sabe.

E veio a grande festa do dia 2 de fevereiro dia consagrado a Yemanjá. Festa que entrou nos anais histórico do calendário litúrgico dos batuqueiros do Partenon.

Quatrocentas pessoas se acercaram ao salão de dona Chininha de Yansãn, tinha gente botando pelo ladrão. Os tamboreiros Micharia e Borel, mais o amigo Tureba se dividiram no toque aos Orixás. Mãos divinas consagrado pelos Deuses ao canto e toque para evocar os Orixás a vir dançar naquela festa. Quando ouvi o toque e o canto daqueles três pensei é hoje que a Yemanjá Bocy despenca do galho e nos brinda com danças e mais danças. Antevia que naquela madrugada estaria reunido a amigos, para comemorar com uma cervejada fruto do grande premio o nascimento de Mãe Yemanjá Bocy do negro Jairo. Ledo engano, pois, foi só passar o portão e ver que mais cabecinhas imundas como a minha tinham tido naquela ocasião à mesma idéia, pois, aquela festa do Batuque quer me parecer era só dos apostadores. Todos estavam ali com a mesma predisposição: o de faturar o premio. Que coisa de louco será possível que não tem mais pessoas de bom coração e honesta neste mundo?

Dos comensais a farta distribuição dos quitutes da cozinha africana, canjas, amalás, atam, cocadas e melancias fatiadas em bandejas percorriam os corredores e o pátio acercando que os convidados sairiam felizes com tanta riqueza dos alimentos.

Convite para participar da Balança nos obrigou a entrar no salão, ali um calor de mais de 32 graus, fazendo sair um vapor dos corpos suados pelas danças dos Orixás, o suor que vertia e escorria, caia em forma de gotas molhando o piso do salão. Um terror os minutos passados ali, pareciam horas.

Terminada a balança, me fui à rua ao encontro do Roberto de Ossanhã, precisávamos arquitetar a execução do plano e quais as atitudes a serem tomadas.

Aguardávamos com certa ansiedade o toque e canto a Yemanjá, pois, era nesta hora que entraríamos em ação.

E foi os tamboreiros Borel de Xangô dar aquela olhadela para o Micharia de Yemanjá e o Tureba e o Jaci de Bará, pegarem os agês para nós entendermos que era chegada à hora. Não perdemos tempo corremos na direção do salão buscando o espaço reservado para a execução do plano diabólico.

Mas foi entrar no salão para entendermos que alguma coisa muito estranha acontecia ali, uma luz de um azul brilhante percorria cada espaço, como uma cauda de peixe deixava antever que era acompanhada por inúmeros fachos de pequenas ondas de uma energia que fez arrepia os cabelos de minha nuca. Pensei estar vendo coisas, busquei os olhos do Roberto de Ossanhã para ver de sua reação, e o que encontrei foi uma cara misturada de medo e espanto. Bateu o terror.

Os Orixás que dominavam o centro do salão em danças e evoluções pararam de dançar e voltaram-se todos e tive meus pensamentos lidos pelos olhos de cada um e me vi cercado por mil condenações. Socorro eu fui descoberto.

Voltei meus olhos para a esquerda do salão dei de cara com a Yansãn de Mãe Chininha, que para minha surpresa escancarou um largo sorriso, quer me parecer com ares de cumplicidade e aprovação. Pensei: vou me dar bem. Tudo de bom.

Quando encontrei o Roberto de Ossanhã, vi que estava branco quem nem cera de vela, tremia dos pés a cabeça e foi logo falando: “Estou fora disso, se tu quiseres vais em frente”. Bobagem eu estou aqui e vou me pronunciar deixa estar que agora estou conluiado a Mãe Yansãn.

E veio o jejo de Yemanjá. Meu Deus! Foi tudo aquilo de bom, o canto de doçura e doce enlevo cercado de magia e encanto tomou conta do salão e as mil luzes voltaram a brilhar, só que desta vez pude com estes olhos que a terra a de comer, enxergar cada Orixá em sua verdadeira forma e beleza. Sim eles estavam ali cavalgando aqueles corpos humanos, mas, para mim que humano eu sou, vi-os em suas formas naturais: A de Deuses. Podem imaginar a loucura desta visão? Claro que não ninguém pode nem sequer eu que vi e vivi e estou aqui a descrever. Vou ficar louco se insistir nesta descrição. Deixa pra lá.

E ali chegou a Yemanjá Bocy, minha nossa Mãe Yemanjá quanta beleza pode existir em um Orixá. Indescritível. E cercada por todos os Orixás aproximou-se de seu filho negro Jairo de Yemanjá Bocy. Pensei cá comigo: É agora.

Mas não foi. Foi ela abrir os olhos e dar de cara com aquela assombração e dar um pulo pra trás. Negou o estribo e não montou para cavalgar. Abri a boca para dar o sorriso de satisfação. To rico. Ledo engano.

No que avançou a Yansãn de Mãe Chininha aos berros: “Pega, tu pegas porque este filho é teu, tu não vai me fazer passar vergonha”. E a pobre guria assustada com o monstro meteu as mãos nos peitos do negrão e deu um baita empurrão que o vivente caiu fora da roda. E naquela luta que parecia não ter fim, cercada por todos os Orixás a menina coquete, a fina flor dos Orixás a mais doce da yabás a Yemanjá Bocy tremula e espantada avançou e finalmente tomou conta da cabeça do negrão. Socorro!!! To endividado!!!!

No que me lembrei que o primeiro que tomasse axé com ela receberia o montante do premio. Corri abri a roda e avancei, me prostrando de joelhos perante a Mãe Yemanjá, recebi o seu primeiro axé. E Deus que salve os justos e oprimidos.

E foi assim que nasceu aquela que era a mais bela Yemanjá dos salões do Batuque do Partenon e adjacências, minha doce Mãe Yemanjá, a Mãe do negro Jairo.

E tem gente que não acredita.

Estes são os impuros de coração e os que não tiveram a felicidade de participar naquela madrugada da grande festança que transcorreu ali ao pé do Morro da Cruz, no Boteco do Tio Nicanor de Ogum, no dia 2 de fevereiro de 1968, churrascada regada à cervejada das boas e benevolentes doses de conhaque São João da Barra. Estes incrédulos e impuros não mereceram participar destas comemorações.

E tenho dito e quem souber que conte outra.