O Poder

Que Vem de Mim

Fui num matagal de um terreno baldio e apanhei um feixe de Guanxumas, precisava fazer uma vassoura para varrer o pátio de dona Alzira de Xapanã, ainda mais que aquele dia era muito especial, ela pretendia fazer um tacho de doce de abóbora. De posse das Guanxumas, amarrei a uma taquara, com um pedaço de arame. Procurei um toco e encostei junto à parte final da ponta das hastes e com auxilio de um facão aparei as partes maiores. Pronto, estava feita a vassoura para minha tarefa de varrer o pátio de dona Alzira de Xapanã.

Cheguei cedinho na sua casa e dei de mão numa bacia com água e molhei todo o terreno por onde eu passaria a vassoura. A seguir dei de mão na vassoura e em poucos minutos estava pronto, brilhando de limpeza, parecia que ali haveria um baile. Com um carrinho de mão e uma pá juntei os pequenos montinhos e fui colocando dentro do carrinho. Perguntei onde depositar o lixo, que em sua maioria eram folhas que caíam de um abacateiro e um velho Cinamomo que serviam unicamente para fazer sombra nos dias quentes de verão.

-Deodé tu colocas naquele buraco enorme que tem lá nos fundos. Pequei o carrinho e passei pela encerra das galinhas e ao lado o Balê de Egum e um pouquinho mais ao lado, aquele enorme buraco. Ali despejei o lixo. Na volta guardei a vassoura, o carrinho e a pá.

Agora era dar inicio ao fogo para colocar o tacho e as abóboras fatiadas que haviam passado a noite de molho em várias baldes com pequenas trouxinhas de cal. Perguntei porque razão, ela disse: “a cal é o que dá consistência no doce de abóbora, do contrario ele desanda”. Mais uma coisa que eu não sabia e acabará de aprender.

O fogo tomou proporções gigantescas, e depois baixou e formou um braseiro, foi quando com ajuda dos seus filhos de santo ela colocou aquele enorme tacho com a abóbora no fogo. Pedi licença para ir até em casa para almoçar e prometi que voltaria o mais breve possível. Fui, atirei a comida dentro da barriga e voltei correndo, tinha que ficar mexendo, sem parar, com uma enorme colher de madeira a parte que ela faria Chimia de abóbora, (minhas preferidas), do contrário poderia queimar e perderíamos o doce. Ou, uma das possibilidades era ficar com gosto e cheiro de fumaça.

Estava girando a massa do doce com aquela enorme pá de madeira sob a observação de dona Alzira de Xapanã, foi quando ela levou a mão à cabeça e no movimento seguinte, me pareceu que ia cair, larguei o que estava fazendo e corri para ampara-la. Quando chego junto à dona Alzira, dois filhos de santo fizeram o mesmo.

Antes de desmaiar, ela ainda falou: “não deixem o doce queimar”. Levamos dona Alzira para dentro da casa e a deixamos sentada em uma cadeira de balanço, ela se negava a ir para o quarto deitar. Rabugenta, teimosa e obstinada não se entregava, era mulher de lida e de executar tarefas, não era de deixar para amanhã o que tinha que ser feito hoje.

Tinha uma resistência nunca vista, mesmo com dores, febre ou o reumatismo característico de sua idade nunca deixou de executar os trabalhos domésticos. Rezingona, desbocada, sempre se queixando de dores das mais diversas, nas mais diferentes partes do corpo, seguia em frente a fazer os trabalhos do dia a dia e independente disso atender seus inúmeros filhos de santo e clientes.

Naquela época, tocar uma casa de religião, não era tarefa considerada fácil, como muitos possam imaginar, tinha que ter pulso firme. E isto, acreditem, para uma mulher de mais de setenta anos, doente e sozinha não é uma tarefa tranqüila. Mas ali estava ela com o pulso firme, levando adiante sua missão.

Ela ficou sentada naquela cadeira de balanço por alguns minutos, o suficiente para silenciar o mal estar que havia acometido. Enquanto o pessoal voltava ao pátio para as tarefas que ela havia distribuído, fiquei segurando uma de suas mãos, enquanto com a outra ela segurava um lenço semi-úmido, que colocava ora na testa, ora no pescoço. Com a cabeça apoiada no patamar da cadeira e tendo duas rodelas de batata inglesa colocada de cada lado da fronte (dizem os antigos que rodelas de batata inglesa puxam a dor!). Sei lá!

Ela recostou-se para descansar.

Foi nesse ínterim que eu perguntei porque motivo ela tivera aquele pequeno mal súbito. Não obtendo resposta fiz algumas perguntas acrescidas de sugestões. Será que foi porque a senhora não havia almoçado? Será que foi porque a senhora não tinha ido sestear, coisa que é de seu hábito, logo após o almoço tirar um cochilo. Ela não me respondeu, continuava calada a matutar lá com seus miolos. Foi quando ela falou para si mesma: “mas esta cadela pensa que pode me tocar”. Ouvi aquele comentário e não dei seguimento, é coisa de pessoa de idade pensar em voz alta. Mas ela voltou com o mesmo assunto e desta vez determinada falar, restava-me ouvir.

-Sabe Deodé, estas tonturas são o efeito de um trabalho que se faz para Xangô, junto com Yansã, a criatura pega a se tontear até cair e o pior pega a ficar esquecida, e não se lembra o que comeu ontem. Com Xangô vem a balança que tira à gente do prumo e com Yansã vem o vento que faz a gente balancear.

Eu conheço este feitiço, esta magia, isto é bruxaria das brabas, e o pior, é de minha própria bacia que vem esta demanda, isto é coisa que eu mesma ensinei agora estou provando o gostinho de minha burrice. Valha-me meu pai Xapanã este meus filhos não tem vergonha na cara de tocar feitiço na própria mãe. Ninguém tem mais respeito. Aonde o mundo vai parar.

Ouvi a tudo aquilo, mas confesso que não entendi nada, para mim ela estava arrumando uma desculpa besta, tratando aquilo pelo lado espiritual, quando seu problema era físico, de saúde.

No fim da tarde terminada as tarefas, eu e os outros participantes daquelas tarefas recebemos como recompensa duas latas, uma recheada de chimia para passar no pão e outra de pedaços de doce de abóbora em calda. Fui para casa entregar os doces a minha mãe.

Mas aquela história de feitiçarias não me saia da cabeça.Quem afinal estava fazendo feitiço para dona Alzira de Xapanã? Quem?

E o mais intrigante: de onde vem esta magia? Já que ela tem certeza que é fruto de sua própria bacia.

Dias depois minha mãe me dá um recado: Dona Alzira mandou te chamar urgente corre lá. Fui, pensando que era para ir ao armazém buscar algum mantimento ou ir até a avenida Bento Gonçalves, na farmácia, buscar algum medicamento.

Lá chegando, como eu era considerado de casa fui entrando e procurando-a encontrei no quarto de santo, arrumava suas prateleiras.

-Dona Alzira, eu estou aqui, cheguei, o que a senhora deseja.

-Senta meu filho.

Sentei e aguardei que ela descesse de um banquinho, (ela estava de pé em cima do banco para poder alcançar a parte mais alta de suas prateleiras). E assim colocar água nas quartinhas de seus Orixás.

-Sabe Deodé, aquele dia eu comentei contigo o que esta acontecendo comigo, é porque tu és um estranho no meu ninho, mas se eu faço este mesmo comentário com um filho de santo, ele corre a contar para todo mundo e todos saberão que eu estou tendo problemas, sendo enfeitiçada e o pior ainda vão dizer que estou com medo.

-Razão pela qual eu só contei para ti.

-Mas dona Alzira até hoje eu me considerava como filho da casa, a senhora vivia dizendo que eu era de confiança, até convidou-me a participar de todas as obrigações e feituras, agora a senhora vem e me diz que eu sou um estranho no ninho, assim me deixa chateado.

-Calma meu filho não pense assim.

-Tu continuas sendo considerado da casa, mas observe que quando eu falo em estranho no ninho estou falando de ninho de cobra, que é o que esta virando minha casa se eu não tomar uma atitude.

-Até porque tua mãe é a Miguela do Bará e tua avó é a Jovita de Xangô, tenho por elas profundo respeito e admiração, mas confiança eu tenho mesmo só em ti.

Fiquei mais tranqüilo depois daquela explicação, só não entendia aonde aquela conversa nós levaria, a sorte que não demorou muito, ela resolveu escancarar de vez.

-Deodé, tu conheces a Negra Estela da Obá?

-Não a conheço, pelo que sei, que é uma de suas filhas de santo mais antiga.

-Deodé aquela negra não presta, aquilo esta fervendo lá para os lados da vila Jardim, se tendo como mãe de santo, e o pior levando consigo meus filhos de santo mais novos e estragando a todos.

-Será dona Alzira? Dizem que ela é uma santa criatura.

-Meu filho, quem vê cara não vê coração, aquilo é uma cobra Cascavel.

-Deodé é de lá que está vindo esta demanda, esta feitiçaria.

-Sim, mas o que é que a senhora pretende fazer?

-Foi por isso que te mandei chamar, preciso de tua ajuda, tu conhece bem a vila Jardim, e tu vais me levar até lá, eu vou parar esta cobra Cascavel e suas malvadezas ainda esta semana.

Nunca me passou pela cabeça dizer não a ela.

Confirmada a data e o horário de saída do comboio da feitiçaria, rumo a guerra dos Orixás, fiquei no aguardo só pensando de como seriam as estratégicas no campo de batalha. Estamos a postos soldado de prontidão, que venha a luta.

Não passou uma semana do acontecido ela me chamou para preparar os ingredientes do nefasto embrulho que colocaria fim as feitiçarias da negra Estela de Obá.

-Deodé eu vou terminar com aquela cobra, e tu vais aprender esta magia: “quanto tu tiveres inimigos de Obá tu não te esquece que para derrotá-la é necessário que tu chames a Oxum Panda, esta detesta a tal de dona Obá e para ter certeza do tombo, tu convocas Xangô Agodô, o velho, por que se tu chamares o Aganjú, ele é muito menino e ela faz dele o que ela quer, com o Agodô ela não tira farinha, o velho mata ela a paulada”.

Amalá, batido dentro da gamela, acrescido de doze bananas com casca e tudo, maças e carne de peito, junto com pirão de água, canjica amarela untada no mel e salpicada no azeite de dendê. Varias trouxinhas de todos os axés, pois de bobo ninguém tem nada, sempre é necessário se calçar. Antes de sair ela deu de mão na quartinha do Bará Lodê e despachou no meio da rua aos gritos: “vai homem, vai à frente porque hoje tem serviço prá ti”. A seguir foi a nossa vez de sair.

Fomos e fomos com tudo para a vila Jardim, na direção da casa da negra Estela de Obá, a cobra feiticeira. No cair à cortina da noite estávamos a posto, só no aguardo que se fizesse o silêncio da cachorrada da vila para despencar o feitiço.

No meio do mato entre enormes pedras ela sentou, precisava descansar um pouco, o caminho fora longo, atravessando o Morro da Cruz, passando pela vila Santa Maria até chegarmos ali, tínhamos percorrido um eito de chão, afora lombas e descidas íngreme, tínhamos vindo pelo meio do mato, por picadas e trechos que nunca ninguém tinha passado antes.

Ela descansou o suficiente para logo após abrir um fardo de mantimentos, pedaços de pão com carne e um pote de doce de abóbora com bolacha Maria e para bebermos água de uma cacimba no meio da mata virgem. Com aquela comilança farta, refeito da caminhada, passamos a traçar os planos de ataque ao barraco da negra Estela.

Naquele cantão da vila Jardim a negra Estela vivia com um negrão que trabalhava na Cervejaria Bhama. Ele havia construído aquela meia-água para início do que no futuro, seria a casa de religião da negra Estela, no terreno podia se ver as primeiras fundações da obra em andamento.

Fui me esquivando e passei para o fundo do pátio e pude ver a negra Estela de Obá, sob a luz da cozinha, mexendo nas panelas, por certo preparava a janta do marido. Aproximei-me bem devagarzinho pude ver a cara da criatura. Foi então que tomei um susto, a criatura tinha a cara e o focinho da dona Alzira de Xapanã, a mulher era escarrada e cuspida a própria, claro que alguns que anos mais jovem. Agora eu sabia que ela era a filha adorada e comentada como a herdeira de sua vasta prole de filhos de santo e de todo o fundamento que até então se conhecia de sua bacia.

Voltei-me e dei de cara com dona Alzira de Xapanã colada nos meus garrões, quase dei um grito tal o susto que levei, fui falar e ela colocou a mão em minha boca me pedindo silêncio.

-Não fale Deodé, agora sei que tu entendeste tudo que está se passando.

Sim, eu só não havia entendido, e não encontrava explicação para nós estarmos ali com tamanha munição, capaz de derrubar um prédio. Sabendo que ia atingir e destruir o que existia de amor entre mãe e filha. Não se tratava de uma estranha, ou de uma filha de religião, mas a verdade incontestável, a sua filha predileta, aquela que sairá de seu próprio ventre.

Aquilo me derrotou, ter que participar de um ato de violência já me deixou indisposto, agora em assunto de família a coisa complicou e acabou por me deixar mal. Pensava em vencer os inimigos de dona Alzira, mas vendo que estes inimigos estavam locadas na própria trincheira, me punha louco de raiva com dona Alzira de Xapanã.

Dentro de mim um silêncio se fez presente, fizemos tudo que tinha de ser feito e picamos a mula.

Na volta, percorri o caminho sem dizer uma única palavra. Ao chegar nas nossas casas dei um boa-noite e fui para casa dormir tinha que levantar cedo para ir ao trabalho. Na manhã seguinte no momento que ia sair para o trabalho quem encontro me esperando no portão? Ela, dona Alzira de Xapanã. Não havia dormido preocupada comigo e com o que eu pensava.

-Deodé meu filho tu tens um tempo para mim?

-Desculpe-me dona Alzira, mas estou atrasado. Se eu perder este ônibus, chego atrasado e perco o emprego.

-Não tem problema à noite eu te aguardo lá em casa. Certo?

-Combinado, na volta do serviço estarei lá. Já no ônibus, pequei a matutar: o que leva duas pessoas, no caso mãe e filha a se digladiar desta forma. Dinheiro, fama, poder, vaidades pessoais, ambições descabidas? Não encontrando nada que se justifica tamanha violência resolvi deixar para lá, não estava nem aí para o angu de caroço delas. Elas que são brancas que se entendam.

Quando retornei a vila, não fui para casa, como era de costume, fui direto à casa de dona Alzira, queria tirar a limpo esta bronca, pois do contrario eu sabia que não dormiria á noite.

Ela estava me esperando com um substancial café. A mesa posta com tudo que é de bom.

-Entra Deodé, te senta guri.

Entrei e sentei, e não tirei os olhos da mesa. Mas fiquei matutando, acho que ela quer comprar o meu silêncio com esta abastança, mas está muito enganada. Saio daqui com o bucho cheio, mas com esta história tirada a limpo, disso ela não vai conseguir me demover.

Dei corda para ela se enforca, agora quero a verdade, custe o que custar. Ela não se fazendo de rogada, terminou de aquecer o leite, pôs na mesa e abriu o bico à não mais perder de vista.

E foi um tal de este, me deve vai ter que me pagar, aquela está de tramóia, vai ter que se explicar. Enfim, acabo de meia hora eu tinha em minhas mãos as armadilhas que meia dúzia de boca-aberta tinham armado para destruir a casa de dona Alzira de Xapanã.

Sob a liderança da negra Estela aquele bando tinha traçado planos mirabolantes, objetivando a inauguração da casa de religião da negra Estela de Obá. Gente metida a besta querendo enganar quem tinha cem anos de Batuque. Aguardem, deixem estar e veremos quem tem mais bala na agulha.

Eu sabia que a cobra ia fumar, aqueles pobres de espírito não estavam preparados para tamanha batalha, ali só ia ficar de pé, quem se ajoelhasse, o resto é bobagem.

Ninguém sairia impune daquela traição, todos sem exceção pagariam o preço da mula roubada, mesmo os que não sabiam a cor do pelo do bicho. Este ditado campeiro minha vó Jovita usava quando ia aplicar uma surra no lombo de um traidor mais atrevido: “Este vai pagar o preço da mula roubada”.

E as semanas se passaram e os tombos e pauladas foram acrescidos de desemprego, dores, choro e ranger de dentes, talho por punhaladas, era um tal de choro e ranger de dentes.

Eu sabia que ninguém sairia impune daquela traição. Ainda mais aqueles falsos, como nota de dois dólares, seguiam em frente com seus sorrisos a desfilar as fofocas e traição todas pelas costas.

É claro, que quem é feito no santo e tem Orixá na cabeça que lhe protege, tudo isso faz parte do jogo. Mesmo que isso, não seja para quem quer, mas sim para quem pode. Agora, aqui entre nós, acreditem a negra velha Alzira de Xapanã Sapata, tinha de sobra, o poder de barganha com os Orixás, ou como ela mesma dizia: “Deodé eu to com os homí e não abro, quem bota vai ter que conferir”. Cruz credo me arrepiou.

Quanto mais o tempo passava, mais demanda vinha, eu até imaginava que aquilo nunca mais acabaria, foi quando veio um Batuque em data estranha e desconhecida.

Fui pego de surpresa com o convite para a festa, que resolvi dar uma passadinha em sua casa para saber o motivo da festa e qual o Orixá a ser homenageado.

Tinha a intenção de fazer uma camisa nova para a festa e levar algum presente.

Quando lá cheguei perguntei para dona Alzira: qual seria o Orixá homenageado naquela festa? No que ela me respondeu: “todos”.

-Legal dona Alzira, é sinal que a festa vai ser bonita.

No que ela saiu com uma resposta estranha: “Deodé tu não entendeu, eu disse todos os que tiverem vergonha na cara e me derem uma satisfação do que hoje acontece com seus filhos”.

E veio a tal festa, mil vezes não tivesse vindo.

O ar estava pesado, nuvens negras já anunciavam que algo de podre cheirava no reino de pai Xapanã, e não era coisa pouca. Mas quem não deve não teme, esta frase dita desta forma, soa falso, como um traidor descarado querendo se justificar.

O melhor e mais correto é pronunciar como minha vó sempre dizia: “quem tem cu tem medo”. Agora sim fica real e bem melhor, porque ao passar a porta do salão eu vi que todos que ali estavam tinham culpa no cartório, um bando de falsos e ordinários a cercar a pobre negra velha.

O coro comeu solto e vieram os Orixás. Foi no Alujá de Xangô Aganjú que despencou toda a árvore daquela casa, Orixás e mais Orixás, eu no meio do salão me desdobrando em fazer chegadas.

Terminado o alujá, o tamboreiro deu uma pausa para descansar e retirou-se do salão. Foi quando tudo aconteceu.

Dona Alzira convidou três paizinhos, mais a Obá da negra Estela para irem até uma peça que ela tinha nos fundos da casa.

Ali eu senti que a cobra ia fumar e a merda ia pegar no tamanco.

Era a hora da verdade e desta não tem quem escape.

Era a hora de botar na mesa e revelar o que está escondido.

Estava parado junto à porta do quarto de santo, quando ela me chamou: “Deodé vem comigo”. Mil vezes não me tivesse convidado, mas fui.

Lá chegando acomodei os Orixás tendo em vista que o local era muito pequeno, naquele espaço mal cabiam duas pessoas, agora tinha seis.

Dona Alzira de Xapanã abriu a graxeira e deliquetideli a falar.

-Em principio não era os senhores que deviam estar ouvindo minhas magoas, tristeza e decepções, mas sim seus cavalos. Mas tendo em vista que delega-se poderes, mas não delega-se responsabilidades, acredito isto sim que sempre será dos senhores a responsabilidade dos atos de seus filhos. E se hoje eu resolvi ter esta conversa franca e no intuito único de ver cessado esta demanda e estes desmandos que só tem me prejudicado e a minha casa.

Eu ali, mas quieto que criança cagada atrás da porta, com os olhos bem abertos que não sou bobo de deixar sobrar prá mim. Aquilo tudo um horror, nunca havia visto muita coisa em minha vida, mas conversa de humanos e Orixás, era a primeira vez, com reprimenda e direito de resposta, exemplificavam que tinha uma linha a dividir direito e deveres constituídos pela hierarquia da casa. Aquela conversa franca na exposição dos fatos mostrava que cada um arca-se com suas responsabilidade. A linha era ali, havia um limite pré-estabelecido e ninguém se atreveria a ultrapassar. Sob pena de ter que arcar com as responsabilidades, agora cobrado dos Orixás.

Mas, eu tinha a mais absoluta convicção: “isso não vai dar em nada, os filhos destes Orixás, são um bando de imbecis nunca vão entender o que é confiança, respeito e credibilidade”. Mas a madeira estava recém começando a pegar fogo, tinha muita lenha para queimar.

Foi num respirar de dona Alzira que a Obá resolveu dar o ar da graça e se fazer de desmiolada e esquecida, misturando os assuntos e fazendo pouco caso da autoridade e responsabilidade de dona Alzira.

A Obá fala: - dona Alzira o que a minha filha fez de tão errado que eu tenho que ouvir estas palavras tão duras.

-A senhora não sabe?

-Não, eu não sei e gostaria muito de saber.

Bem, foi o que bastou a Dona Alzira enlouqueceu e subiu nas tamancas.

- O que! A senhora e sua filha não têm vergonha na cara, então a sua filha me borda de feitiço e a senhora vem me dizer que não tem conhecimento! Mas isso é um disparate, eu não sou mulher de engolir desaforo.

E foi prá já.

-Deodé me alcança este litro que está ai do teu lado.

Ao pegar me arrepiei, era um litro cheio de fel, (era uma técnica usada pelas mães de santo da época, cada vez que sacrificavam quatro pés, guardar o fel em um vidro, eu conhecia aquele vidro e pelo rotulo deu para ter uma idéia que tinha muitos anos a espera por aquela ocasião).

-Bem, já que a senhora tem dúvida do que digo resolvi lhe presentear com isso. Já alcançando o vidro aberto.

Dá para imaginar naquela peça de dois por dois o cheiro terrível de carniça que explodiu naquele ambiente. Senti ânsias de vomito e tapei o nariz para me proteger, mas era inútil o fedor era maior.

A Obá da negra Estela não se fez de rogada deu de mão no litro e despejou goela a baixo. Terminado ofereceu aos outros participantes que fizeram o mesmo. Meu Deus por meu pai Odé, o bucho desta gente vai virar fumaça, isso deve queimar das tripas grossas até a sola dos pés.

A seguir foram convidados a passar para o salão onde foi providenciado um Alujá redobrado de Aganjú, no que todos dançaram e dançaram até que faltasse a força ao tamboreiro.

Dado por encerrado, todos no mais absoluto silêncio foram despachados.

E assim terminou o Batuque que nunca mais esquecerei.

Os dias se passaram e as coisas em vez de se modificarem parecem que pioraram.

Faltava a conversas entre humanos, e esta parece que nunca acontecia, havia sempre um adiamento, uma transferência para ocasião mais propicia.

Numa manhã de domingo é que se deu o fato.

Chegou um bando de filhos, netos e amigos de dona Alzira para fazer um churrasco dominical.

Fui convidado de ultima hora e não me fiz de rogado, corri para ajudar a providenciar a limpeza da churrasqueira e fazer o fogo.

Tudo transcorreu na maior alegria e descontração, muita bebida e muita carne gorda e samba e pagode. Em baixo dos Cinamomos a negrada liberou geral e cada um pegou um instrumento e foi feita a farra.

Eu de garçom me vi louco buscando cerveja e mais cerveja gelada, misturadas com grandes canecos de caipirinha.

No fim da tarde, no descer a cortina da noite à negrada cansada do fêsterê, começa a se despedir, foi quando tudo aconteceu, entornou a balde e o furúnculo veio a furo.

Até hoje não sei que frase foi solta ao vento que veio cair justamente no colo de dona Alzira e que causou tanta revolta e indignação.

De repente, não mais que de repente a negra velha saltou da cadeira e soltou o verbo.

-Olha aqui minha filha, tu ta me tirando prá boba?

-Mãe a senhora esta caducando e não sabe o que está dizendo.

Foram as primeiras palavras de uma confusão que durou mais de quatro horas, e que eu vou tentar resumir.

Aquela visita tinha um intuito, o de notificar que na segunda-feira à noite os irmãos de santo rebelados viriam à casa de dona Alzira buscar seus orixás para se transferir de mala e cuia para a nova residência a casa da nega Estela de Obá.

Então era isso, simplesmente isso e nada mais. Coisa a toa que qualquer mãe de santo assimila e deixa prá lá. Meu Deus! Mas afinal a onde está negra pensa que vai com está burrice e estes desmandos. Atropelar conceitos e fundamentos? Ou será que este poder todo é coisa que se expõe e põe para derreter? Onde esta a ética nos relacionamentos ditos religiosos? Ledo engano engana-se alguns, mas não se engana todos o tempo todo.

E a mestra estava ali para ensinar, e é chegada a hora da onça beber água.

-Minha filha passe aqui para o salão, foi o convite de dona Alzira.

No que a negra Estela entrou encontrou o braço de dona Alzira na direção de suas fuças. E foi um tal de toma vagabunda, e bateu a se fartar, surra merecida e atrasada, por demais aguardada por todos que conheciam as falcatruas da negra Estela de Obá.

No meio daquela pancadaria a negra conseguiu dominar a dona Alzira e resolveu que não receberia as pancadas de graça, retribuiria com a mesma força e intensidade. No que levantou o braço sua mão não chegou a um metro do rosto de dona Alzira para parar no ar e a negra Estela se espatifar no chão.

Agora é que vem a parte que me fez escrever esta história.

Dona Alzira de Xapanã Sapata dominou a negra Estela de Obá e aplicou o corretivo com estás palavras.

-Minha filha de onde tu pensas que vem todo este poder que tu mostras para os que te admiram, que faz com que eles me traíam e se revolte baseado no que tu falas e faz?

De onde que tu pensas que tu nasceste?

Quem te deu axé de faca e búzios?

Quem te ensinou a arte da magia e os segredos dos axés?

Quem minha filha? Quem minha filha? Quem?

A cada pergunta uma bordoada, a cada silêncio, uma pancada.

Para continuar a perguntar cada passo da negra Estela do nascimento até aquele momento da surra.

-Minha filha burra e inconseqüente, minha pobre filha, para teu governo é de mim que vem este poder. Eu sou o poder que te deu vida e saúde, eu sou o poder que te deu nome e fama, eu sou o poder que te fez ser o que tu és e é dentro do meu axé que tu és o que tu pensa que és, pois sem o meu axé tu não eras nada.

E assim terminou aquela tarde em que aprendi que sem a negra velha todos nós seriamos um nada, um zero a esquerda, pois ela era o centro de tudo e dela emanavam o conhecimento e a vida.

Passou um mês e eu voltei lá precisava reavaliar alguns conceitos que estavam me perturbando a cabeça. Dona Alzira de Xapanã me recebeu com o maior carinho.

-Entra Deodé, vai entrando meu filho.

Entrei, sentei e não precisei perguntar a resposta estava ali diante de meus olhos, todos sem exceção, filhos, netos e bisnetos ali estavam a cercá-la de carinho.

Dona Alzira me convidou a ir até o salão.

Bati cabeça em seu quarto de santo e passamos a conversar.

-Deodé meu filho a vida é assim e assim que a gente tem que aprender, tu um dia terás tua casa de Religião e terás como filho de santo aqueles que pensam que são mais que tu, direito besta eles tem de pensarem assim, mas na verdade as orelhas nunca serão mais altas que a cabeça.

Ontem me lembrei de dona Alzira de Xapanã Sapata, o interessante é que no momento que pensava nela adentrou minha casa uma filha de santo carregando um tubo de creme de barbear, meu presente de aniversário.

Já fazia dois anos que eu não a via, depois de duas horas de conversa onde ela me relatou que estava muito bem, que inclusive ganha por mês 1.800,00 reais para as suas despesas.

Viera me comunicar que tinha comparecido a festa de cinqüenta anos de aniversário de vasilha do Orixá de seu ex-pai de santo, junto com todos os seus filhos de santo, num arrazoado de mais de oitenta pessoas.

Agradeci o creme de barbear e ela saiu pela porta da frente rumo a seu carro zero, ultimo tipo, deu adeus e seguiu em frente. Fiquei a imaginar o que será que ela pensa que é um ter um pai de santo?

Será que eu não fui bom o suficiente para ter esta paga? Será que não se faz mais necessária a minha presença. Será que tudo que sou e represento, é um rosto para as fotos de salão. Será que ela pensa que pode entrar em minha casa julgar minha vida, me dar explicações desconexas e seguir enfrente impune por seu Orixá. Agora eu me pergunto, que Orixá eu fiz na cabeça desta criatura?

É dona Alzira de Xapanã sapata! A senhora tinha razão, pois parece que o poder destas pessoas não nasceu de mim. Parece que nunca fui à porta, a ponte, à chave, o caminho que os levou a onde eles estão. Ontem em busca deste poder eles batem a porta da casa da gente de mãos vazias querendo o que demais belo existe em nosso coração, hoje eles viram a cara, julgam e magoam no momento mais difícil de nossas vidas.

Hoje enquanto estou lambendo minhas feridas ela desfila com a prole de filhos de santo que eu ajudei a aprontar, nos salões de batuque a dar o ar da graça, sentindo-se a poderosa, esquecida da máxima maior, que este poder que ela ostenta veio de mim.

João Carlos de Odé.