Voçê acredita em Lendas

Voçê acredita em Lendas?

A lenda do Vaga-Lume Azul.

Numa cidade do interior de Santa Catarina.

-Calma Deodé! Cidade? Mas está história está começando muito mal, porque logo em uma cidade no interior de Santa Catarina?

-Ora bolas toda a história tem que ter uma cidade!

-Se tu vais escrever uma maldita história e vem logo com cidade no interior de Santa Catarina, só pode ser Criciúma!

-Porque tens alguma coisa contra Criciúma?

-Não, nada, é que sei que tu moraste lá, só isso.

-Está bem, vamos tentar de novo.

-Num povoado a beira de um riacho poluído, no meio de uma favela miserável.

-Sim, mas agora passaste para agressão ao meio ambiente, devastando o sistema ecológico e a qualidade de vida. Lá vem tu com miséria e pobreza! Cruz credo hoje tu está pesado de mais com tua inspiração.

-Engano teu, penso que escrevendo assim, vai despertar o interesse ao meu leitor.

-Posso prosseguir?

-Podes vais em frente, hoje estou com toda a paciência do mundo.

Pois bem, naquele povoado miserável, a beira de um riacho poluído vivia um bando de gente ignorante que mentiam e enganavam o povão com curas milagrosas. Tudo feito às escondidas, aproveitando-se da escuridão e do fato da maioria da população ser cega.

Toda essas falcatruas eram feitas em baixo de uma árvore frondosa chamada Nação africana, ou seja: o batuque. Estavam estes prevalecidos vivendo a bancarrota e se locupletando da pobre árvore, até que um belo dia em cima daquela árvore posou um Vaga-lume Azul, cheio de luz a brilhar. A luz se espalhou e tomou conta do povoado. E fez-se a luz onde antes havia a mais completa escuridão, findou o medo e a insegurança, era chegado o fim do charlatanismo e curandeirismo praticado sob a sombra da árvore chamada batuque. Enfim, acabou-se o que era doce, era chegada a hora da verdade e não tinha escapatória, tudo por conta da luz do Vaga-lume Azul que ali havia posado, espalhando claridade onde havia o completo breu e a mais profunda escuridão. Ali estava ele, de cima daquela árvore a brilhar, como um farol a iluminar os barcos que navegam em

continuando...

Ali estava ele, de cima daquela árvore a brilhar, como um farol a iluminar os barcos que navegam em mar bravio, ali estava a certeza que aquele pequeno Vaga-lume com sua luz iluminaria os pobres de espírito e cegos da verdade, e da cultura da religião africana.

Era chegado o novo tempo, onde os questionamentos, as perguntas nunca antes respondidas teriam respostas, os anseios, os medos que tinham mais de trinta anos, dariam lugar à certeza. Agora sob a luz do conhecimento, os verdadeiros fundamentos do batuque, mudariam aquele estado de coisa. Aquela luz brilhante da sabedoria e experiência aberta a todos, viera para ficar e todos sabiam que nada a impediria de brilhar e espalhar o conhecimento a todos que dela se acercasse.

No começo todos se opuseram e a resistência se fez presente e os falsos profetas botaram as barbas de molho, a seguir partiram para a agressão torpe, suja e vulgar, para no ato seguinte surgirem os tempos de violência e difamação. Mas o pequeno Vaga-lume Azul firme no topo da árvore parecia que quanto mais contrariedades surgiam, mais luzes ele tinha para irradiar, era luzes sobre luzes. Até que um belo dia um menino mais atrevido subiu encima da árvore de posse de um chinelo de dedo, esmagou o frágil Vaga-lume Azul e assim acabou a luz e voltou a escuridão. Hoje naquela cidade todos seguem na mais profunda ignorância sem saber que um dia esteve junto a eles à luz da verdade e do fundamento, mas que um moleque mais sapeca matou com um chinelo de dedo.

-Mas, Deodé aonde esta a moral desta história?

-Moral de história não se explica, cada um que leia e tire sua conclusão, cada qual um dia encontrará a sua.

-E daí Deodé, aonde queres chegar com esta história sem pé e sem cabeça, afinal de contas, de onde veio este Vaga-lume Azul e que fim deu a tal luz? Esta história não pode acabar assim, tem que ter uma moral.

-Bem, voltemos ao Vaga-lume Azul, eu vou tentar reescrever esta história, para isso vou tentar compará-la com a minha vida religiosa. Um dia eu também acreditei que poderia fazer ...

Termine de Ler e tire um minuto para meditar

-Bem, voltemos ao Vaga-lume Azul, eu vou tentar reescrever esta história, para isso vou tentar compará-la com a minha vida religiosa. Um dia eu também acreditei que poderia fazer um mundo melhor, e para isso construí na cidade de Criciúma uma casa de religião africana chamada Casa de Alaketu. Queria que ela fosse uma sociedade onde todos os meus filhos de santo fossem iguais, da qual não houvesse inveja de um irmão de religião. Para isso dei a todos os meus filhos os meus axés, era o que eu tinha de mais sagrado. Mas existia uma coisa que eu não poderia dar, era meu dom, isso era herança de meu orixá, nascera com ele, isso se tem ou não se tem, isso não se transmite, isso é de fórum intimo, pertence ao sagrado, mas, infelizmente a maioria queria unicamente isso. Mesmo assim eu relutava em aceitar esta verdade, mas o tempo e tudo que se acercou da Casa de Alaketu me mostrou que há sempre algo para invejar. Um sorriso, uma amizade, uma alegria, um brilho, um talento, um casamento, algo que você tem e o outro quer ter a qualquer custo. Ali, eu aprendi que mesmo no universo do batuque, lugar de fé, amor e compreensão, sempre haverá ricos e pobres, os ricos em dons...Os pobres em dons...Os ricos no amor...Os pobres no amor...

Hoje, passados tantos anos, eu posso ver o quanto eu fui idiota acreditando que poderia criar uma casa de religião onde todos fossem iguais, irmanados dentro da fé, com isso tentava criar um novo homem, esquecido que o homem sempre será homem, mesmo aqui no batuque.

-Obrigado Deodé agora eu entendi.

-Não estava tão difícil assim você é que não quer fazer esforço para entender, queres prato feito, pense e veras que é bem simples, o homem sempre será homem e nada podemos fazer para modificá-lo, e os Vaga-lumes, serão sempre Vaga-lumes, nasceram para brilhar.

-Encerra esta história Deodé, isso ai já é muito para minha cabeça!

-Espaço para risos (há, ra, ra, ra, há, ra, ra, ra, há, ra, ra, ra).